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  Título
Gêneros e fronteiras em Caro diario (Nanni Moretti, 1993)
Autor
Gabriela Kvacek Betella
Resumo Expandido
Se Bakhtin já havia antecipado uma pluralidade dos gêneros discursivos, capaz de aumentar com o desenvolvimento e com a complexidade da práxis humana, nada mais justo do que considerar a ampliação das noções de gêneros discursivos, literários e audiovisuais e levar em conta o conceito de gênero híbrido para todos os campos artísticos. Ainda como introito, é preciso considerar que alguns críticos argumentam que a arte é sempre autobiográfica, pois mesmo se não reproduz os fatos da existência do artista do modo como são percebidos por um observador externo, não por acaso mostra uma vida interior, pensamentos, emoções. Por outro lado, a teoria da narrativa nos ensina que nunca há coincidência total entre autor e personagem, nem mesmo na autobiografia.

Sabemos que nas tendências autobiográficas contemporâneas a discursividade verbal atravessa os limites da confissão de si e aporta em estratégias de intertextualidade e práticas do ensaio, da autoficção, da metaficção. A composição criativa ganha melhores condições de ser assimilada pelos interlocutores, sejam leitores ou espectadores. A estrutura híbrida de depoimento, ficção, documentário, se enriquece com as inovações, rompe o convencional, contudo exige uma compreensão para além dessa estrutura visivelmente atraente com a subjetividade elevada à autenticidade.

Nosso trabalho discute as intenções autobiográficas no cinema de Nanni Moretti (1953-), cineasta italiano da geração conhecida como “nova” ou “terceira onda”, cuja obra vem sendo tratada em termos de autobiografia e metacinema. Privilegiamos a análise do posto de narrador em Caro diario, de 1993, considerando o ensaio pessoal, o diário, o diário de viagem, as memórias e o romance autobiográfico como seus pares literários. Temos em vista a engenhosidade com a autenticidade, disposta a atender à necessidade de realidade, hábil em dar acesso à intimidade e a sanar alguma curiosidade, porém decidida a se manter na fronteira entre realidade e ficção. Propomos uma análise que desvenda as razões do rompimento com as pretensões de objetividade “realista”, “neutra” e a preferência pelo narcísico ponto de vista, do qual partem as agudas reflexões políticas e éticas, por sua vez colocadas com legitimidade. Investigamos a postura e o alcance da autoexposição como mecanismo estético, crítico e autocrítico.

Moretti desafia a estabilidade dos gêneros e também interfere na instabilidade da hibridização dos mesmos, pois seus filmes afirmam-se como autobiográficos, mantendo a possibilidade de dialogar com várias produções e autores notadamente voltados para a crítica política, em momentos decisivos. O cinema italiano passou por uma crise no final do século XX, agravada pelo descaso dos órgãos governamentais, pela padronização da produção nacional e pelo descrédito em novos diretores, a despeito da situação provocar um refluxo ideológico na geração pós-68. Moretti conseguiu explorar esse inconsciente marcando sua filmografia com o domínio de uma intuição dos ânimos sobre uma nova forma. Assim, a discussão das próprias convicções pelos protagonistas fundiram sentimentos de uma época e, ao mesmo tempo, abordaram os novos modos de narrar no cinema, num percurso autorreferencial e metalinguístico que ainda leva em conta a nostalgia do passado e os estereótipos.

A proposta aqui não é exatamente desvendar as intersecções autobiográficas nos filmes de Moretti, nem evidenciar o grau de intertextualidade, mas verificar como as noções de hibridização e de escrita autobiográfica se articulam com os seus filmes, sobretudo em Caro diario, no qual a palavra escrita costura os três episódios. Tentamos demonstrar que há modalidades instigantes, pois a trajetória do diretor vai levá-lo a abdicar de falar pelo outro e abrirá espaço para que este fale em primeira pessoa, referindo-se não a si, mas ao diretor. Tentamos explicar até que ponto a estabilidade dos gêneros é dissolvida pelo cinema de Moretti por meio de uma afirmação da instabilidade.
Bibliografia

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