Voltar para a lista
 
  Título
Entre o ficcionista de si e o leitor da própria vida
Autor
PEDRO PEREIRA DRUMOND
Resumo Expandido
É traço marcante do momento contemporâneo do cinema brasileiro um recorrente interesse pela forma híbrida, com filmes que se localizam entre a promoção de uma janela documental para realidades cotidianas de segmentos sociais marginalizados e sua apresentação em uma estrutura ficcionalizante. Filmes como “Morro do Céu” (2010), “O céu sobre os ombros” (2011), “Branco sai, preto fica” (2014) e “A vizinhança do tigre” (2015) são exemplos premiados de um fenômeno que resulta da prática de convocar não-atores para o exercício da Auto-mise-en-scène, como um convite para que suas identidades, memórias e cotidianos sejam a principal matéria prima para as tramas construídas em uma gramática que, no entanto, estabelece procedimentos ficcionalizantes através do ocultamento do aparato cinematográfico e de seu papel interventor.



Este trabalho se preocupa especificamente com este lugar ambivalente do não-ator nas produções contemporâneas, que integram o diagnóstico de um cinema “pós-industrial”, como proposto por Cezar Migliorin. Neste cenário caracterizado pelo fazer coletivo e pela horizontalidade, estes não-atores convocados para habitar subjetivamente um espaço fílmico ocupam uma posição de co-criadores e, considerando que as tramas derivam diretamente de suas histórias e cotidianos reais, são de fato co-autores, ficcionistas de si. Porém, ao serem responsivos à uma mise-en-scène direcionada pelo realizador, ao performarem uma vida semelhante aos seus cotidianos segundo uma encenação que lhes é proposta enquanto tematização de mundo de um autor outro, tornam-se também uma espécie de espectadores-participantes do dispositivo ficcionalizante do fazer fílmico, leitores da própria vida em ato performativo com um jogo do texto fílmico.



Ao escrever sobre o cinema de Pedro Costa, que compartilha muito das diretrizes apontadas por este trabalho sobre o cinema híbrido contemporâneo, o filósofo Jacques Ranciére aponta a emergência de um “terceiro personagem” performado pelo não-ator, que “Já não é um personagem de documentário acompanhado em sua atividade cotidiana, nem um personagem de ficção, mas uma pura figura nascida da própria anulação dessa oposição que divide a humanidade em espécies diferentes” (Ranciére, 2012, p. 162). É central para este presente trabalho pensar em como essa conclusão intuitiva de Ranciére é justificável a partir de uma compreensão do fictício enquanto um fenômeno do efeito estético, cujos procedimentos e operações interacionais são os potenciais da encenação enquanto categoria antropológica (Iser, 1996, p. 404) e, especialmente para o autor francês, política. Esta abordagem sobre a encenação está presente na disciplina literária através da teoria estética de Wolfgang Iser, na qual reconheço uma valiosa plataforma reflexiva para pensar também o texto cinematográfico.



A questão central deste trabalho é, portanto, propor o estudo do lugar deste não-ator nas produções contemporâneas, a partir do desdobramento do vocabulário conceitual da teoria Iseriana. Acredito que estes participantes do filme acumulam em simultaneidade tanto as operações outrora vinculadas ao lugar do autor na literatura, quanto do leitor, segundo a teoria de Iser, buscando uma nova perspectiva para conceitos como os de “atos de fingir” e o “jogo do texto como ato performativo”, pensando-os para além da especificidade da literatura, alcançando os modos da encenação como um todo, como parece ter sido também a ambição do autor alemão em seus últimos trabalhos em vida.



Por vezes acusado de apolítico, é interessante pensar em como o trabalho teórico de Wolfgang Iser pode ser aporte para um objeto estético contemporâneo amplamente referenciado como gesto politicamente engajado, comunitário e reconfigurante da vida social. A mesma teoria que fundou um dos pilares da emancipação do leitor na disciplina literária pode ajudar a compreender o que é, e o que pode aquele que está entre ser um ficcionista de si e um leitor da própria vida no cinema.
Bibliografia

ISER, Wolfgang. O fictício e o imaginário: Perspectivas de uma Antropologia Literária. Rio de Janeiro: EDUERJ, 1996.

______. Os atos de fingir ou o que é fictício no texto ficcional. In: LIMA, L. C. (Org.). Teoria da literatura em suas fontes Vol.2. Trad. de Luiz Costa Lima. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002 p. 955-985.



KLINGER, D. Escritas de si, escritas do outro: o retorno do autor e a virada etnográfica. Rio de Janeiro:7Letras, 2007.



MIGLIORIN, Cesar. Por um cinema pós industrial – notas para um debate. In. Cinética, revista virtual. Disponível em 2011. Acesso: 15/05/2016



RANCIÈRE, Jacques. As distâncias do cinema. Rio de Janeiro: Contraponto, 2012.