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  Título
O espaço como operação de montagem no projeto Meu Bairro Vale um Filme
Autor
Marcio Blanco
Resumo Expandido
A emergência da categoria espaço confunde-se com a origem e desenvolvimento das formas de mapeamento: mapas de estados, cidades e capitais, mapas de formação geológica, mapas de distribuição populacional, etc. Todo mapa é uma imagem, não só em seu aspecto visual – conjunto de linhas, figuras, cores – mas também como esquema mental que produz o efeito de semelhança por analogia com seu modelo. Nesse sentido o espaço não é apenas um problema restrito ao campo da geografia. Os aspectos apontados na confecção de mapas também se encontram presentes em larga medida nas imagens produzidas por dispositivos técnicos tais como máquinas fotográficas, celulares, câmeras de vídeo, etc. Por isso este artigo se propõe a pensar a relação entre espaço e imagem no contemporâneo como um problema estético, apoiando-se na análise do “Meu Bairro Vale um Filme”, um projeto que estimula moradores da Zona Norte do Rio de Janeiro a produzirem vídeos de curta duração a partir da relação com seus bairros e que posteriormente são disponibilizados em uma plataforma digital para apreciação do público internauta.

“Meu Bairro Vale um Filme” permite pensar a noção de espaço da cidade como efeito da operação que incide na produção e recepção das imagens no projeto. Essa operação, ao colocar em jogo diferentes instâncias, também se mostra como lugar de produção de subjetividade nos termos de Félix Guattari:

(...) o conjunto das condições que torna possível que instâncias individuais e/ou coletivas estejam em posição de emergir como território existencial auto referencial, em adjacência ou em relação de delimitação com uma alteridade ela mesma subjetiva. (GUATTARI, 1992, p.19)



O “território existencial” à que se refere Guattari diz respeito ao posicionamento do individuo em meio a relações de alteridade que podem ser de ordem institucional, familiar, jurídica, maquínica, afetiva, etc... No projeto em questão a produção de espaço da cidade resulta de uma operação de montagem das relações de alteridade que o gesto de criar e ver imagens coloca em jogo.

Para auxiliar na análise dessa operação conto com o auxílio da reflexão elaborada por Jaques Rancière em dois de seus textos: “O destino das imagens” e o “espectador emancipado”. No primeiro a montagem é vista como uma operação que acontece no interior da obra e é responsável pela regulagem entre o dizível e o visível. No segundo texto Rancière desloca a análise dessa operação de montagem para a relação entre obra e espectador. Nos dois casos a operação se refere ao conceito de mimesis, onde a semelhança não é vista como uma relação de uma cópia com seu modelo mas como “uma maneira de fazer as semelhanças funcionarem no interior de um conjunto de relações entre maneiras de fazer, modos de palavra, formas de visibilidade e protocolos de inteligibilidade”.

É sob essa ideia de conjunto que é analisado o funcionamento das semelhanças que o projeto opera por meio da tensão entre imagens e as palavras. Seus efeitos são avaliados aqui tomando a palavra não apenas no interior de um conjunto circunscrito à obra mas a palavra estendida à superfíce onde essas imagens deslizam, no caso a internet. Nela a palavra não deixa de servir como um elo de ordenação, de causa e efeito entre as visibilidades, no entanto essa palavra não pertence a um circuito fechado onde o elo é legitimado por uma palavra autorizada pronta a dizer o que o as imagens são, quer se trate da palavra do artista ou da palavra do crítico. Essa é a palavra do espectador feito criador, cujo poder de associar e dissociar pertence a qualquer um.
Bibliografia

BENJAMIN, Walter. A doutrina das semelhanças. In:_____. Obras Escolhidas: magia e técnica, arte e política. Tradução: Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Editora Brasiliense, 1996,p. 108-114.



________ . Sobre o Conceito de História. In:_____. Obras Escolhidas: magia e técnica, arte e política. Tradução: Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Editora Brasiliense, 1996, p. 222-234.



GUATTARI, Félix. Caosmose: um novo paradigma estético. Rio de Janeiro: Editora 34, 1992.



PAGLEN, Trevor. Geografia experimental: da produção cultural à produção do espaço. In: BAMBOZZI, Lucas; BASTOS Marcus; MINELLI Rodrigo. (Orgs). Mediações, tecnologia e espaço público: panorama crítico da arte em mídias móveis. São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2009.



RANCIÈRE, J. A. A partilha do sensível. Rio de Janeiro: Ed. 34, 2009.

_________. O destino das imagens. São Paulo: Contraponto, 2012.

_________. O Espectador emancipado. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2012.