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  Título
Cinema "pós-industrial": fluxos de trabalho e esteticas sonoras
Autor
Kira Santos Pereira
Resumo Expandido
Baseada na pesquisa em andamento sobre o processo criativo do som e montagem no cinema brasileiro, foi possível observar que modos de produção e propostas estéticas estão, como em toda a historia do cinema, intrinsecamente conectados. Farei uma aproximação entre as formas de produção e os processos criativos do cinema pós-industrial (Migliorin, 2011) e de outros cinemas independentes ou autorais, como aqueles encontrados por exemplo em Dias de Nietzsche em Turim (dir. Julio Bressane, 2001), Ceu de Estrelas (dir. Tata Amaral, 1996) e mesmo em O Candinho (dir. Ozualdo Candeias, 1976). Em vários círculos, especialmente aqueles que reúnem profissionais mais ligados à indústria cinematográfica brasileira – é bastante comum ouvir criticas explícitas ao aparente amadorismo de certas produções que se distanciam da lógica industrial de produção. Migliorin (2011) cita por exemplo a fala de Cacá Diegues em Tiradentes, alertando sobre a fragilidade da economia do cinema brasileiro (e pelo que se pode intuir do discurso de Migliorin, aparentemente fazendo um apelo à a defesa da indústria do cinema). No primeiro Encontro de Profissionais de Som do Cinema Brasileiro (em 2013) houve uma discussão em torno de metodologias de som "erradas" adotadas por certas produções audiovisuais fora do eixo Rio-SP, citando explicitamente procedimentos amadores que teriam resultado em uma baixa qualidade técnica sonora em O Som ao Redor (dir. Kleber Mendonça, 2013). Na Semana ABC de 2016, na mesa sobre montagem, um dos apelos de Daniel Rezende era a de que os montadores teriam que ter uma postura mais profissional, no sentido de cobrar prazos e condições de trabalho mínimas, se distanciando, talvez, de uma postura daqueles que fazem cinema “por amor”, "na brodagem". Idê Lacreta, em entrevista cedida logo após a citada mesa, manifestou seu descontentamento com este discurso afirmando que considera sua postura profissional – por sinal sendo parte atuante no mercado de cinema desde 1980, muito antes do que todos os participantes da mesa – apesar de muitas vezes deliberadamente "se sujeitar" a prazos e condições incongruentes com as práticas do cinema comercial. Afirmou inclusive que tem aberto mão de ganhar dinheiro ao trabalhar com diretores estreantes em projetos com orçamentos mínimos. Isso por que encontra nestes filmes uma potência e uma liberdade criativa, inclusive para seu próprio trabalho, que considera difícil de encontrar nas produções audiovisuais mais próximas da lógica industrial. Na comunicação buscarei analisar os procedimentos criativos e relações de trabalho específicos a este setor audiovisual "independente" que passam, por exemplo, por uma aproximação à autoria coletiva ou à criação colaborativa, por uma fluidez das funções tradicionais de cada membro da equipe e um questionamento da hierarquia produtiva, e por prazos mais extensos de trabalho, que inclusive já não é necessariamente contínuo.
Bibliografia

COSTA, F. O som no cinema brasileiro. Rio de Janeiro: 7Letras, 2008.

DOANE, Mary Ann. Ideology and the practice of Sound Editing and Mixing. In WEIS and BELTON. Film Sound: Theory and Practice. Columbia University Press, 1986.

FLORES, V. O cinema: uma arte sonora. São Paulo: Anablume, 2013.

MIGLIORIN, Cezar. Por um cinema pós-industrial: Notas para um debate. Revista Cinética, Fevereiro de 2011.

MANZANO, Luiz Adelmo. Som-Imagem no cinema. São Paulo: Perspectiva, 2003

STAN, Robert. Pós cinema: a teoria digital e os novos meios. in Introdução à teoria do cinema. Papirus, 2013