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  Título
Wise/Robbins, Angelopoulos, Jancsó: agenciamentos sonoros, ritornelos
Autor
JOCIMAR SOARES DIAS JUNIOR
Resumo Expandido
Exemplo 1: No número musical “Mambo!” de Amor Sublime Amor (Robert Wise e Jerome Robbins, 1961), duas gangues juvenis rivais dançam fervorosamente, competindo pelo mesmo estrito espaço, o salão de dança de clube noturno. De um lado, os que se consideram legitimamente americanos, os "Jets"; de outro, os imigrantes porto-riquenhos que integram os "Sharks". Após uma espécie de ciranda que mistura momentaneamente as gangues, cada grupo se aglutina de um lado do espaço, dividindo o salão literalmente em dois, cada qual exibindo suas habilidades de dança. Toda a mise en scène aponta para uma impossibilidade de reconciliação do conflito de cunho xenófobo entre norte-americanos e latino-americanos – até que o encontro do casal protagonista esboça uma linha de fuga.

Exemplo 2: Em A Viagem dos Comediantes (Theo Angelopoulos, 1975), acontece um verdadeiro “duelo musical” no interior de uma taverna. Num plano-sequência, ao invés da agressão física, o embate político entre monarquistas e comunistas é travado musicalmente: de maneira alternada, os grupos entoam, à capela, canções embebidas de seus fervorosos discursos ideológicos. A disputa termina com a derradeira expulsão dos comunistas desarmados, após um tiro para o alto dos monarquistas. Estes, numa valsa da vitória, passam a ocupar completamente o espaço antes dividido.

Exemplo 3: Em O Confronto (Miklós Jancsó, 1969), parados em frente às grades do monastério, os jovens estudantes comunistas cantam juntos sobre o desejo de liberdade, antes de pularem os muros. Uma vez lá dentro, diante dos alunos e dos padres-professores, marcham abraçados cantando um hino comunista, ocupando o espaço central do pátio, antes de lançarem perguntas provocativas sobre política aos religiosos. Após as tentativas de diálogo provarem-se infrutíferas, os comunistas abraçam-se numa espécie de cordão humano, expulsando do pátio os alunos do monástério, e passam a dançar e cantar exaltando a revolução, ocupando todo o espaço.

De que forma podemos correlacionar estas encenações de filmes tão diferentes, de cineastas, países e conjunturas sociais e mercadológicas tão distintas? Gilles Deleuze e Félix Guattari chamam de “ritornelo”, num sentido geral, “todo conjunto de matérias de expressão que traça um território, que se desenvolve em motivos territoriais, em paisagens territoriais” e, num sentido mais restrito, quando são agenciamentos sonoros (músicas, cantos, melodias, ruídos) que “dominam” as territorializações, reterritorializações e desterritorializações (2012, p. 139). Nos exemplos citados, há a performance musical (cantada ou dançada), seja acompanhada ou não por música instrumental extradiegética, como forma de encenar os conflitos dos personagens (ideológicos, políticos, sociais, territoriais). Através das canções, eles agenciam territórios, e nestas cenas este aspecto territorial fica ainda mais claro, em um jogo de ocupar e desocupar a superfície do quadro com sons e movimentos que disputam um mesmo espaço físico restrito.

Não se trata aqui de hierarquizar estas encenações, mas pensar que tipos de agenciamentos elas evocam através da encenação. Se aprofundam as estratificações, criando representações coesas que estabilizam os territórios opostos, criando uma imagem utópica, apaziguada, ou se evidenciam as incongruências, a instabilidade dos territórios que se desmancham e se reorganizam através dos movimentos e dos embates, numa imagem que conjura tudo menos a utopia enquanto modelo ideal de sociedade, mas a utopia como prática de revolução, “ação e paixão revolucionárias”, nos termos do Anti-Édipo (p. 89-90). Apesar dos projetos estéticos bastante diferentes, o conceito de ritornelo aparece como uma ferramenta teórica interessante para pensar as relações entre som e imagem nestes filmes de maneira não-hierárquica, transversal.
Bibliografia

ALTMAN, Rick. The American Film Musical. Indianapolis: Indiana University Press, 1987.



DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix (1980). “Acerca do Ritornelo”. In: Mil Platôs: Capitalismo e Esquizofrenia 2. Vol. 4. 2 ed. São Paulo: Editora 34, 2012. p. 121-179.



DYER, Richard. "Entertainment and Utopia". In: COHAN, Steven (org.) Hollywood Musicals, The Film Reader. New York: Routledge, 2002.



HERZOG, Amy. Dreams of Difference, Songs of the Same: The Musical Moment in Film. Minnesota: University of Minnesota Press, 2010.



HORTON, Andrew. The films of Theo Angelopoulos: A cinema of contemplation. Princeton: Princeton University Press, 1997.



RUCINSKI, Krzysztof. History as Ritual: Camera Movement and Narrative Structure in Films of Miklós Jancsó. Abril de 2004. 102 p. Dissertação (Mestrado em Cinema) – Concordia University, Montreal, Quebec, Canada.



VIEIRA, João Luiz. “Cinema e Performance”. In: XAVIER, Ismail (org.). O Cinema do Século. Rio de Janeiro: Imago, 1996.