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  Título
A reflexividade e os dilemas éticos nos filmes de linguagem híbrida
Autor
Camilla Vidal Shinoda
Resumo Expandido
As significações dadas pelo senso comum para os conceitos de documentário e ficção são suficientes para uma série de situações. Por isso, começamos o artigo com as definições propostas pelo dicionário, aquelas que todo mundo tem em mente. A ficção, tomada dessa forma, é associada ao fingimento, à simulação, à invenção e à imaginação. Aqui tudo é possível, desde que caiba na coerência da narrativa. O documentário está associado à obrigação de transmitir uma impressão de autenticidade. Partindo dessas ideias, qualquer espectador que entre em um cinema consegue dizer, rapidamente, qual é o gênero do filme que irá assistir. Essas significações, no entanto, são tão simplificadas que chegam ao ponto de colocar os dois conceitos em oposição. O binarismo não é interessante para quem quer consumir cinema de maneira mais crítica ou para quem se dedica a fazer filmes. Um entendimento mais complexo, que defende uma interação processual entre o documentário e a ficção, se torna muito mais interessante para o estudo e a construção da linguagem cinematográfica.

Assim, não é possível considerar a existência do gênero puro: não há um filme que seja apenas documentário ou apenas ficção. Todo filme traz, mesmo que de forma inconsciente, elementos dos dois gêneros. Como esses elementos estarão presentes em todos os filmes, para os cineastas, se torna mais interessante perceber como equilibrá-los, de forma que atendam bem às suas intenções e aos limites éticos que cada projeto fílmico exige. A reflexividade, conceito utilizado na antropologia, é uma boa ferramenta para balancear os elementos dos dois gêneros em um filme. Afinal, a reflexividade nada mais é do que um processo constante de auto-questionamento de métodos e de maneiras de construção das representações do outro. Esse auto-questionamento constante permitiu que cineastas começassem a trazer inovações para a linguagem cinematográfica. Uma delas é o tensionamento consciente de elementos do documentário e da ficção ao realizar filmes. O antropólogo e cineasta Jean Rouch foi um dos primeiros a trabalhar, de forma consciente, essa tensão. Nesse momento, a negociação entre diretor e personagem/entrevistado se torna fundamental. As questões éticas se tornam ainda mais delicadas quando se embaça o limite entre os gêneros, afinal, a pessoa real sempre é julgada pela representação de si que é construída no filme. No caso dos filmes híbridos, é importante que o espectador esteja ciente dos processos de negociação que guiaram a construção do personagem. Mesmo no caso de filmes colaborativos, há um maestro, o diretor, que é quem participa de todas as etapas da produção e é quem toma as decisões. Na verdade, o que se faz durante os processos colaborativos, não é se abdicar de uma autoria, mas sim reconhecer e acolher, dentro da experiência, a agência dos personagens. Entendendo como agência, essa capacidade de ser reflexivo, de compreender, questionar e tomar consciência da representação que está sendo construída naquele momento.

O artigo é finalizado com uma discussão sobre o cinema como um instrumento de tomada de consciência, principalmente nos casos de filmes com processos colaborativos, que permitem que os personagens também tenham um acesso maior ao funcionamento da produção. Essa tomada de consciência, no entanto, acontece de forma diferente para a equipe e para os personagens. Observar o mundo e pensar em formas de representação são atividades que abrem as portas para essa tomada de consciência e os cineastas, por tomarem essas atividades como sua profissão, já estão pensando nisso a mais tempo que os seus personagens. Geralmente, apenas os cineastas têm a visão global da produção, participando de todas as suas etapas, o que também lhes oferece uma espécie de vantagem. Assim, por maior que seja a sensibilidade do personagem, por mais que ele realmente tome consciência de sua performance, será sempre uma consciência fragmentar se comparada a do diretor.
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