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  Título
O DESPERTAR DA MAGIA TECNOLÓGICA: O CAMPO DO MAKING OF NA CULTURA POP
Autor
Patricia de Oliveira Iuva
Resumo Expandido
O lugar conferido aos making ofs no campo da produção cinematográfica e/ou audiovisual não tem uma definição unificada. Para além das variações de formato e modelos de produção, vale lembrar que sua existência remonta o desejo antigo do espectador pelo acesso ao backstage (no teatro) ou ao behind the scenes (no cinema e na televisão). Esse espectro da atração pelo detrás das câmeras sempre instigou o imaginário do espectador, ainda mais em filmes cujos efeitos visuais elevaram o emprego dos dispositivos tecnológicos. De acordo com Evans (2010), se nas décadas de 1970 e 1980 os produtores temiam em mostrar demais a “magia” tecnológica do cinema, hoje já não estão mais, pois o behind the scenes se constitui enquanto uma parte da experiência cinematográfica, entendida para além das salas de cinema.

No entanto, existe uma suposição, tanto do campo da produção quanto da distribuição e recepção, de uma clara hierarquia distinguindo o trabalho artístico do filme do status puramente comercial dos making ofs. Bourdieu (1996a) assinala que essa estrutura dicotômica, há muito tempo organiza a produção e a percepção dos produtos em todos gêneros artísticos. O que busco demonstrar é que através de um mapeamento da produção de making ofs, é possível vislumbrar a existência de um espaço cujos agentes, instituições, instâncias de reconhecimento demonstram preocupação com as práticas de uma estrutura cuja especificidade é relevante. A explicitação desses mecanismos, permitem designar, na acepção de Bourdieu (1996a), um campo do making of, o qual se legitima de forma mais evidente a partir de um conjunto de lógicas e práticas da cultura pop. A compreensão dos diferentes formatos estético-narrativos e modelos produtivos, a inscrição de diretores, produtores e técnicos específicos, o tipo de público consumidor, as instâncias de consagração, constituem marcas do campo do making of que constrói sua autonomia em diálogo convergente com os modos de produção e de fruição no contexto da cultura pop.

Às reflexões acerca do delineamento do campo do making of na cultura pop segue-se a circunscrição da expressão formal estética foco desta proposta: o making of documentário. Nesse sentido, a dimensão da tecnologia do DVD/Blu-ray está atrelada à minha reflexão, pois não estou considerando o making of documentário enquanto produto isolado, mas discutindo-o na lógica da cultura pop, em que as obras são inseridas no mercado dos bens culturais. O consumo e circulação dos making of documentários não está, portanto, dissociado das edições e/ou box sets de DVDs/BDs dos filmes de referência, as quais são cada vez mais elaboradas tendo em vista o cinéfilo colecionador. O fenômeno do cinéfilo colecionador recai aqui sobre obras e cineastas que trabalham no cerne de um sistema industrial cuja gênese é o entretenimento. A produção do valor da obra cinematográfica na lógica das edições especiais de DVD/BD associa a crença no valor distintivo de obras não necessariamente preocupadas com ambições artísticas – mas que respondem aos critérios de consumo e fruição de sentidos da cultura pop, ao mesmo tempo em que espera retorno de vantagens econômicas advindas dessa associação. A última seção da proposta irá operar empiricamente sobre as relações de (res)significação e consumo/circulação do filme Star Wars: Episode VII - The Force Awakens (2015) através de seu making of documentário intitulado Secrets of the Force Awakens: A Cinematic Journey (2016), apontando possibilidades de apreensão analítica sobre esse encontro em 3 níveis: memória do filme, cinéfilo colecionador e agentes e processos produtivos. Na análise elucidam-se os efeitos e os princípios constitutivos do making of, acenando uma dimensão autoral na composição bem como análise do contexto e das condições de produção do mesmo. Tanto o realizador quanto o contexto de produção em que ele está inserido são fontes de construção e efeitos da obra, de modo que as escolhas dos autores refletem e/ou são reflexo disso.
Bibliografia

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CRUZ, Décio Torres. O Pop: Literatura, mídia e outras Artes. Salvador: Quarteto, 2003.

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