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  Título
(Re)Descobrindo László Moholy-Nagy, Teoria e Prática
Autor
Fernanda Aguiar Carneiro Martins
Resumo Expandido
Mais conhecido graças a suas realizações nos domínios da pintura, da escultura, da fotografia, do design e da tipografia, esquece-se que o artista multimídia, húngaro de origem, László Moholy-Nagy (MN, 1895-1946) voltara-se igualmente para o cinema.



Influência decisiva ao ingressar na Bauhaus, em Weimar, em 1923, desde então a ideia “arte e técnica, uma nova unidade” faz-se premente. Uma vez pedagogo, Moholy-Nagy desempenha igualmente a função de editor, data de “Pintura, Fotografia, Filme” (PFF, 1925), marco inaugural de divulgação de seu pensamento, objeto de várias reedições. Nele, encontra-se o roteiro jamais filmado "Dinâmica da Metrópole" (DM), o qual E. Dimendberg reconhece como sendo amplamente ignorado, embora constitua um “texto chave” para o estudo dos filmes de cidade dos anos 1920 (DIMENDBERG, 2003). A meu ver, sua importância é tal que, termino por o chamar de “roteiro manifesto”, espécie de primeiro aporte crucial para esses filmes. (MARTINS, 2013).



Na introdução, que precede o roteiro DM, lê-se que a intenção estética é atingir o fílmico, ou seja, o filme que procede das potencialidades da câmera e da dinâmica do movimento. MN afirma: “A intenção do filme Dinâmica da Metrópole não é ensinar, moralizar, nem contar uma história; seu efeito é construído para ser visual, puramente visual. Os elementos do visual não possuem entre si uma conexão lógica absoluta; suas relações fotográficas e visuais, contudo, os fazem unir em uma associação vital de eventos no espaço e no tempo e trazer o espectador ativamente para a dinâmica da cidade.” (MOHOLY-NAGY, 1973: 122). Cabe, pois, apreender o que se coloca em termos de experimentalismo, em que consiste esse material “visual, puramente visual”, sustentado por MN. Dotado de uma originalidade admirável, vale conferir o trabalho de poesia visual e verbal, favorecendo a expressão do dinamismo de seu tema, a cidade. Em sua edição inglesa de 1973, observa-se cada página dividida em uma série de figuras ortogonais fechadas de tamanhos irregulares, cujos quadrados e retângulos formados por linhas pretas de larguras variadas se dispõem vertical e horizontalmente, dirigindo a atenção para toda a superfície da página. Acrescente-se a isso, a presença de fotografias, além do trabalho tipográfico. Desde então, design gráfico, fotografias e tipografia fazem com que as atividades de ler e de ver apareçam ambas em igual medida. Dada a singularidade de DM, indagamos o seu estatuto unicamente de roteiro ou de alcance enquanto de obra de arte autônoma, a produção do filme tendo sido recusada pela produtora alemã UFA, devido a não conter ação, apesar da boa ideia.



A presente comunicação se propõe a analisar o roteiro DM, em conjunção com os escritos de MN, encontrados, sobretudo, na tradução francesa de PFF, a qual reúne os escritos do livro e textos variados. Cabe debruçarmo-nos, pois, sobre o trabalho de um dos maiores artistas do século XX, cuja obra visionária permanece atual. Em DM e nos escritos, deparamo-nos com uma aproximação entre a fotografia e o cinema, cuja reflexão põe a imagem no centro das preocupações de MN, por sua vez, apta a traduzir a “dinâmica da metrópole”, a valorizar uma “visão em movimento”. Em sua apreensão da imagem, MN parece determinar algo primordial para o entendimento das sinfonias urbanas, anterior ao que mais adiante as define, o trabalho da montagem.



Tais leituras têm sido de particular interesse para as atividades do Laboratório de Análise e Criação em Imagem e Som – LACIS (UFRB/CNPq), o qual se propõe a estudar o cinema de vanguarda e experimental, lançando-se igualmente no trabalho de laboratório, ou seja, de criação. Eis a origem do curta-metragem "Cachoeira, Sinfonia de uma Cidade" (3’36", 2015), espécie de resgate das sinfonias urbanas, homenagem à cidade de Cachoeira e ao cinema, em especial, ao cineasta brasileiro Alberto Cavalcanti, cuja sinfonia de cidade "Rien que les heures" (Paris, 1926) completa noventa anos.
Bibliografia

BENJAMIN, E. Sobre la Fotografía, 5ª ed., trad. J. M. Millanes, España: Pre-Textos, 2013.

DIMENDBERG, E.. “Transfiguring the Urban Gray - L. Moholy-Nagy´s Film Scenario Dynamic of the Metropolis” In. ALLEN, R., TURVEY, M. (editors). Camera Obscura, Camera Lucida: Essays in Honor of Annette Michelson, Amsterdan: Amsterdan University Press, 2002.

MARTINS, F. A. C.; SANTOS, E. R. “Les Symphonies Urbaines: Origines et Inventeurs” In. OLIVEIRA, H. L. L. de et al. (org.), Voix et Images de la Diversité, Paris: l´Harmattan, 2013.

MOHOLY-NAGY, L. Painting Photography Film, trans. Janet Seligman, Cambridge/Massachusetts: The MIT Press, 1973; Peinture, Photographie, Film et autres écrits sur la photographie, traduction Catherine Wermester et al., Paris: Gallimard/Essais Folio, 2014.

MOHOLY-NAGY, S. Experiment in Totality, Cambridge/ Massachusetts: The MIT Press, 1969.

MOLDERINGS, H. “Un Monde sans Gravité" In. DESPIRE, R. László Moholy-Nagy, Paris: Nathan/ Collection Photo Poche, 1998.