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  Título
Os sons da encenação em Sur, uma película político-tanguera.
Autor
Guilherme Maia de Jesus
Coautor
Leandro Afonso Guimarães
Resumo Expandido
Via de regra, quando convocados no âmbito dos estudos sobre o cinema, conceitos como mise en scène, staging, puesta en cena e encenação, se referem a uma matéria expressiva essencialmente visual. Aumont (2008, p. 68) diz que encenar é “exercer o olhar sobre o que se filma, distinguindo-lhe o essencial e tornando-o visível”. Bordwell (2008, p.36) considera que “o essencial sentido técnico do termo denota cenário, iluminação, figurino, maquiagem e atuação dos atores dentro do quadro.” Para ele “a imagem da mise-en-scène por excelência é um plano-sequência com grande profundidade de campo.” Para Bonitzer (1999), mise-en-scène designa uma inteligência artística no agenciamento dos planos, incluindo a montagem e os movimentos de câmera no rol dos elementos constitutivos da encenação.



No Dicionário de Teatro de Patrice Pavis (1996, p. 122), no entanto, Veinstein (1955), fixando a gênese do conceito de mise en scène na segunda metade do século XIX, propõe duas definições de encenação. “Numa ampla acepção, o termo encenação designa o conjunto dos meios de interpretação cênica: cenário, iluminação, música e atuação.” Em um sentido mais restrito, encenação designaria “a atividade que consiste no arranjo num certo tempo e num certo espaço de atuação, dos diferentes elementos de interpretação cênica de uma obra dramática.” Ora, na primeira definição, a música tem explícito direito de pertencimento ao conceito. Na segunda, quando fala em “diferentes elementos da interpretação cênica de uma obra dramática”, não confere nenhuma ênfase aos elementos visuais. Vozes, música e ruídos, portanto, nestas definições fundadoras, fazem parte do jogo da puesta en cena.



Ao migrar para o campo dos estudos fílmicos, todavia, o conceito de encenação parecer ter, em grande medida, se “descolado” dos elementos sonoros. Hoje fala-se muito em “paisagem sonora”, é bem verdade, e esse conceito pode ser entendido como um equivalente ao de mise-en-scéne aplicado à imagem – a posta dos sons em cena. Observemos, contudo, que são conceitos que costumam transitar em territórios distintos, como se som e imagem, no cinema, não formassem um objeto íntegro, trazendo de volta a este Seminário uma questão interessante: o campo dos estudos de som no cinema decerto cresceu de forma imponente nestas últimas décadas, mas até que ponto teve força suficiente para ocupar espaços importantes no campo dos estudos cinematográficos, de um modo geral?



Como mais um passo na nossa jornada investigativa sobre o cinema musical latino-americano, que teve algumas de suas ações apresentadas nos nossos dois últimos encontros, desta vez trazemos aqui o musical Sur (Fernando Solanas, 1988) para propor uma análise de mise en scène que inclua os elementos sonoros, tomando como objeto um número musical do filme, no qual o agora e o ontem, a vida e a morte, a memória e o delírio, a prisão e a liberdade, o desencaixe e o encaixe amoroso se fundem em um belo espetáculo minimalista de encenação audiovisual, sintetizando a dor difusa e tão “argentina” que é o prato principal do cardápio sensorial e sentimental do filme.



Unindo duas importantes tradições do cinema argentino: as películas tangueras e o cinema político, Sur foi contemplado com o prêmio de melhor direção na edição de 1988 do Festival de Cannes. Decerto o sofisticado tecido político da camada cognitiva do filme em muito contribuiu para esse reconhecimento, mas, da mesma forma, não devemos temer afirmar que o sabor específico deste filme, assim como sua consagração em uma das mais importantes instâncias do campo, paga altos tributos ao modo como os números musicais de Sur são postos em cena, especialmente os tangos interpretados por Roberto Goyeneche, “El Polaco”, cantante famoso pela astúcia na ornamentação das frases em rubato.
Bibliografia

AUMONT, Jacques. O cinema e a encenação. Trad. Pedro Elói Duarte. Lisboa, Texto e Grafia, 2008.



BONITZER, Pascal. Qu’est-ce qu’un plan? em Le Champ Auvegle, Essais sur le réalisme au cinema. Paris, Petite Bibliothèque des Cahiers du Cinéma, 1999.



BORDWELL, David. Figuras traçadas na luz – A encenação no cinema. Trad. Maria Luiza Machado Jatobá. Campinas, Papirus Editora, 2008.



FARKAS, Guilherme. Som e mise-en-scène. https://revistausina.com/2015/05/15/som-e-mise-en-scene/. Maio, 2015.



OLIVEIRA JR., Luiz Carlos. A mise en scène no cinema – do clássico ao cinema de fluxo. Campinas, Papirus, 2013.



CONSTANTINI, Gustavo; RAPAN, Eleonora. Sonido e inmersión en la trilogía salteña de Lucrecia Martel. Imagofagia, n.º 13, 2016.