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  Título
CINEMA E ERRÂNCIA: NOTAS SOBRE UM ENCONTRO COM CRIS
Autor
Raquel do Monte Silva
Resumo Expandido
Mundo dos sentimentos. Caos. Instabilidade. Vertigens. Sim, o cinema incorporou estas sensações, tentou dar forma a esses torvelinhos, a essas pulsões que constituem o humano, que o reverberam no mundo. Na escritura cinética do fluxo, a esteticidade das imagens revela-se na busca, via representação, das sensações puras e das experiências surgidas e realçadas no instante pré-significante , constituindo-se num regime estético afetivo, no qual a materialidade somada à interface das paisagens sonoras e visuais favorece uma espécie de linguagem artística ubíqua que evoca e reconecta ao mesmo tempo as dimensões plásticas, ontológicas e perceptivas. Esse cinema fluxus reinvidica em si mesmo as potências do olhar que emergem no movimento, na circulação das forças, na dimensão transcendente do plano fílmico. Este como um lugar. Como um tempo. Espaço que condensa luz, texturas e cores, capta os sentimentos do mundo e seus movimentos, provoca esse ressignificar do olhar.

Sensorial por excelência, o bloco sensível que forma o filme que mergulhei constitui-se numa trajetória que abandona a racionalização das formas no mundo e as identidades fixas. Descartando qualquer tentativa de apreensão intelectual, a poética que nasce no contexto de maleabilidade indica a construção de uma imagética que se alimenta da duração, pois o inscrito nessa experiência possibilita a imersão em um universo no qual um olho errante vagueia no entre espaço de um estado temporal rarefeito. Esse é formado por uma superfície lisa em que vários fios intencionais são emaranhados e sendo assim, a prerrogativa do sentido escapa, pois já não há o desejo de substantivar ou impor um sentido ao mundo, e sim, o que existe é um mergulho no presente assignificante, mas absoluto por natureza. “O cinema de fluxo renuncia a consciência ligante, à identidade, à síntese em prol da “rapsódia de percepções” da flutuação generalizada, da filmagem bruta do escoamento do real” (Bouquet, 2002, p.47).

Destituído do pressuposto da fixidez das coisas e mergulhado no fluido no qual escorre o real, esta vertente cinematográfica tenta, considerando a metamorfose, filmar o mundo em que as coisas ainda não receberam nomes. Neste sentido, a experiência fílmica assume-se como a materialização de blocos de afetos observados por um olhar imerso no mundo que contempla, se perde e encontra uma espécie de sensorialidade singular viabilizada pelo encontro fenomênico com os fragmentos de vida encenados.

Para mim, afastando-me um pouco das discussões sobre encenação e aproximando-me do bloco de afetos inscrito em Eles voltam (2011), mas que também passa por filmes distintos pertencentes a cinematografias múltiplas, que designam uma possibilidade de vivenciar uma experiência estética singular surgida no encontro com um fenômeno de natureza fílmica que produz a ressignificação de um processo existencial. Aqui o olhar recai sobre a produção citada. A busca é tentar descrever sobre a minha experiência em contato com a obra e que sensações eclodem dessa relação. Para tanto, para conciliar a cartografia afetiva que me predisponho a fazer, permito-me relacionar-me com conceitos que envolvem o tempo, o espaço e a existência, tudo mediado pela ambiência cinemática e com vistas a tentar reverberar um campo sensível no qual a errância é evidenciada. São essas chaves de leitura que abrem espaço para a compreensão dos processos que envolvem a errância e tentam repercutir como o cinema capta este estado, revelando trajetórias erráticas que incorporam e temporalizam, dentro de uma espacialidade, a experiência do caminhar sem metas. É isso que torna o conceito de de errância específico e que o diferencia diante dos outros movimentos.
Bibliografia

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BORDWELL, David. Figuras traçadas na luz: a encenação no cinema. Trad.: Maria Luiza Machado Jatobá. Campinas, SP: Papirus, 2008. (Coleção Campo Imagético).

BOUQUET, Sthephane. (2002ª). Les flux sans visage. Cahiers du Cinéma, n.569, jun.

____________________(2002 b). Plan contre flux. . Cahiers du Cinéma, n.566, mar.

DELEUZE, Gilles. A Imagem-tempo. São Paulo: Brasiliense. 1995.

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MACHADO, Roberto. Deleuze, a arte e a filosofia. 2ª ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2010.

OLIVEIRA JR., Luiz Carlos. A mise em scène no cinema: do clássico ao cinema de fluxo. Campinas, SP: Papirus, 2013. Coleção Campo Imagético.