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  Título
Escobar, o patrão da mídia – tensões no audiovisual na escobarmania
Autor
Maurício de Bragança
Coautor
Hadija Chalupe da Silva
Resumo Expandido
Percebemos um evidente aumento do número de produções audiovisuais latino-americanas voltadas para o universo do narcotráfico. O tema está presente em várias formas narrativas e modelos de produção, desde telenovelas, seriados, telesseriados, longas-metragens e mesmo videoclipes (se formos tomar a indústria fonográfica em torno dos narcocorridos mexicanos). Este incremento não diz respeito apenas à maior quantidade de títulos disponíveis, mas também a um maior investimento de capital na sofisticação do produto a ser oferecido, buscando um aprimoramento da qualidade técnica que crie um impacto na circulação e consumo destas narrativas. Dessa forma, há uma constatada ampliação de público em torno dessa produção, diagnosticada por Virginia Mouseler, fundadora da WIT, agência que pesquisa a TV no mundo, que, numa palestra durante o International Academy Day, sediado pela Rede Globo em junho de 2015, disse que as tramas de narcotráfico latino-americanas surgem como prioridades de investimento no momento atual, juntamente com o noir nórdico e as telenovelas turcas. Assim, podemos constatar que essas produções relacionadas ao narcotráfico ganham impacto não apenas em mercado latino-americano, mas tendem a se estender a um mercado global. Dentro desse repertório, uma figura se destaca, protagonizando várias tramas e levando para a indústria do espetáculo de âmbito globalizado, uma história onde crime e vida política nacional criavam uma íntima e problemática relação. Nesta comunicação, queremos apresentar uma discussão sobre um fenômeno recente da indústria cultural relacionada à escobarmania. Estamos falando de como o maior e mais importante narcotraficante da história, o colombiano Pablo Escobar, converteu-se numa estrela da indústria do espetáculo, surgindo como protagonista de um destacado número de produções audiovisuais que inclui uma telenovela, um seriado e filmes ficcionais e documentais, sem contar com os inúmeros livros publicados a seu respeito que aquecem o mercado editorial na América Latina, convertendo-se em verdadeiros best-sellers. O líder do Cartel de Medellín que aterrorizou a Colômbia nos anos 1980, sendo responsável pela morte de candidatos à presidência da república, juízes e centenas de civis nos atentados que promovia, ressurge de forma carismática nas narrativas recentes que o acolhem como a uma celebridade (inter)nacional. Pablo Escobar é tema de filmes como Escobar – Paraíso Perdido, de Andrea di Stefano (França/Espanha/Bélgica/Panamá, 2015); o documentário Os pecados do meu pai, de Nicolas Entel (Argentina/Colômbia, 2009); a telenovela Escobar – o patrão do mal (Colômbia, 2012); a série produzida pela Netflix Narcos, dirigida por José Padilha dentre outros, em 2015. Além disso, o traficante também é personagem secundário em Blow, de Ted Demme (EUA, 2001), do documentário A vida privada dos hipopótamos, de Matias Mariani e Maíra Bühle (Brasil, 2015) e do filme ainda em produção de título provisório Mena, que conta a história de um piloto do traficante. Mena é uma produção americana que traz a estrela Tom Cruise no papel do piloto a serviço do tráfico. Nesta comunicação, a partir de Narcos, vamos analisar de que forma a figura de Pablo Escobar encaminha uma discussão que passa pelos formatos narrativos e de produção, a inserção de estratégias em torno de uma identidade continental em termos globalizados, e as tensões geradas pela perspectiva da coprodução, pontuando um debate que recorre às próprias estratégias históricas do cinema hegemônico hollywoodiano ao tratar de forma internacionalizada narrativas situadas na América Latina. Neste sentido, percebemos o narcotráfico para além de um tema da moda, mas também como um campo de problematizações capaz de desvelar as tensões presentes nas políticas e disputas em torno das representações da América Latina.
Bibliografia

BRAGANÇA, Maurício de. A narcocultura na mídia: notas sobre um narcoimaginário latino-americano. Significação: Revista de Cultura Audiovisual, v. 37, p. 93-109, 2012.



CHALUPE da Silva, Hadija.; SILVA, Antonio Carlos Amancio da . Mercado comum de filmes. In: Carlos Gerbase, Eduardo Campos Pellanda; Juliana Tonin. (Org.). Meios e mensagens na aldeia virtual. 1aed.Porto Alegue: Editora Sulina, 2012, v. 1, p. 167-188.



MARTIN-BARBERO, Jesús. La globalización en clave cultural: una mirada latinoamericana. Globalisme et pluralisme. Colloque internationale. Montreal/abril de 2002. Disponível em http://www.er.uqam.ca/nobel/gricis/actes/bogues/Barbero.pdf acesso em 02/04/2016.



RINCÓN, Omar. “Todos temos um pouco do tráfico dentro de nós: um ensaio sobre o narcotráfico/cultura/novela como porta de entrada para a modernidade”. São Paulo: MATRIZes, jul/dez 2013.