Voltar para a lista
 
  Título
O ESTATUTO DO ROTEIRO EM MARÇAL AQUINO E LUIZ FERNANDO CARVALHO
Autor
Cristiane Passafaro Guzzi
Resumo Expandido
As constantes releituras de obras literárias para a televisão e o cinema estão inaugurando um espaço sólido na contemporaneidade ao construírem novos horizontes de expectativa e de leituras possíveis para os estudos discursivos em geral. O aumento considerável de releituras de textos consagrados ou de produções literárias já pensadas para serem traduzidas em suportes audiovisuais1 - fruto, talvez, de um fluxo intercambiável que vêm caracterizando o cenário da produção contemporânea – despertou a necessidade de um estudo rigoroso das especificidades discursivo-textuais que são retrabalhadas, refutadas, ou condensadas nessas traduções.

Como uma espécie de registro final das especificidades trabalhadas nesse movimento de rearranjo das categorias narrativas da obra literária para outro meio, temos como objeto o roteiro que, apesar de constituir-se como gênero estabilizado, parece estar, há tempos, carecendo de uma revisão do seu próprio estatuto, dentro do campo dos Estudos Literários, pelo modo como vem explorando e incorporando especificidades da literatura em sua composição, deixando, em muitas produções autorais, de ser um mero registro técnico ou instrumental apenas para diretores ou profissionais do ramo. Vale lembrar, inclusive, a crescente quantidade de cursos sobre roteiro, disponíveis nos âmbitos antes dedicados apenas à literatura, assim como os espaços, cada vez maiores, que a discussão sobre roteiro vem ganhando nos festivais literários consagrados. É notório também as incursões teóricas dos screenwriting studies, campo de estudo já consolidado e de amplo alcance de estudiosos internacionais, bem como o interesse exponencial pelas publicações do Journal of Screenwriting.

Levando tais apontamentos em consideração, Esta comunicação pretende cotejar o movimento apreendido pela poética do cineasta Luiz Fernando Carvalho, com o trabalho realizado pelo escritor e roteirista Marçal Aquino em suas parcerias fílmicas com os diretores Beto Brant e Heitor Dhalia. É importante ressaltar que Carvalho mobiliza procedimentos cinematográficos dentro da especificidade e dos recursos da televisão, apresentando-nos, em suas realizações finais, um produto que pode ser tratado e analisado a partir das teorias fílmicas. Dessa forma, nossa proposta busca estabelecer, entre ambos, relações quase antagônicas: Carvalho, que é cineasta, concebe o roteiro com características próximas ao texto literário, enquanto que Aquino, escritor, concebe o roteiro mais parecido com uma partitura cinematográfica. Dessa forma, interessa-nos examinar a maneira como, dentro da produção contemporânea, o objeto roteiro, por meio de uma configuração textual que se mostra intercambiável e passível de dialogar dentro do cânone literário, parece ganhar um novo estatuto. Para tanto, buscaremos problematizar e revisitar estudos existentes sobre as especificidades da literatura e do roteiro, a partir da contribuição do conceito de intermidialidade, tanto o que vem sendo estudado pela perspectiva da teoria semiótica francesa, como o que sustenta as reflexões sobre o tema nos estudos transmidiáticos, visando à compreensão do roteiro como gênero complementar para o estudo de obras literárias transpostas para outros meios.
Bibliografia

ABREU, L.A.; CARVALHO, L. F. Hoje é dia de Maria. 1a e 2a jornadas. São Paulo: Globo, 2005.

______. CARVALHO, L. F. Roteiros inéditos A Pedra do Reino. São Paulo, 2007. Não publicado.

AQUINO, M. O Invasor. São Paulo: Geração Editorial, 2002.

______. Entrevista disponível em . Consulta em

24/05/15.

BRADY, J. The Craft of the Screenwriter. Nova York: Simon and Schuster, 1982.

CARRIÈRE, J.C. & BONITZER, P. Prática do roteiro cinematográfico. SP, JSN Edit., 1996.

DINIZ, T. F. N. (Org.). Intermidialidades e estudos interartes. Belo Horizonte: Ed UFMG, 2012.

GUZZI, C. P. Por uma Imagem da Literatura: a poética do escancaramento do diretor Luiz Fernando Carvalho. Tese (Doutorado em Estudos Literários). UNESP, Araraquara, 2015. 360f.

MARAS, S. Screenwriting: history, theory and practice. Wallflower Press, Londo & New York, 2009.

MULLER, A; SCAMPARINI, Julia. (Orgs). Muito além da adaptação. Literatura, cinema e outras artes. Rio de Janeiro: 7 Letra, 2013.