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  Título
Escrever para a câmera: a videografia de Marilá Dardot
Autor
Carla Miguelote
Resumo Expandido
Quase toda a obra da artista brasileira Marilá Dardot dialoga com a literatura, com textos e livros da tradição literária. Em seus vídeos, entretanto, o que parece estar em jogo é, mais do que o texto, o próprio gesto de escrever. Em sua produção videográfica, a artista não mais flerta com o texto literário, incorporado à tradição, mas performa a escrita, trazendo à cena a palavra das trocas cotidianas. Ao inserir o texto verbal no registro na imagem em movimento, Dardot problematiza o fluxo veloz de informações do mundo contemporâneo, colocando em questão a temporalidade da escrita e da leitura, a plasticidade dos signos verbais para além da função de representação, a inscrição e o apagamento, a memória e o esquecimento.

Escrever (e apagar) verbos em uma lousa branca – Hic e nunc (2002) –, compor palavras com dados de letras – Entre nós (2006) –, datilografar cartas – Correspondência (2008) –, confeccionar cartazes com a tipografia artesanal típica das ofertas de supermercado – Quanto é? O que nos separa (2015) –, escrever com água num grande muro de concreto – Diário (2015) –: o conjunto de vídeos de Marilá Dardot aponta para um inventário das modalidades do escrever, dos suportes, técnicas e instrumentos da escrita.

Não se trata, aqui, de escrever com a câmera (como anunciara, metaforicamente, Alexandre Astruc), mas de escrever para a câmera, literalmente. Escrever para a câmera: alinhar letras e sinais gráficos diante da câmera. É preciso especificá-lo, já que se tem afirmado, nos discursos sobre arte contemporânea, a concepção de uma escritura expandida, que não se restringe ao alfabeto, mas se compõe na articulação de imagens e objetos. No caso dos vídeos acima citados, estamos falando deste gesto fundante da consciência histórica e para o qual Vilém Flusser não vislumbra nenhum futuro: a organização, em linhas, de sinais do código alfanumérico. Tudo se passa como se a artista estivesse compondo sua singela homenagem aos diversos gestos de escrita, prestes a desaparecer, ou pelo menos a se tornarem arcaicos, diante da primazia de novos códigos.

Os vídeos de Dardot remetem aos trabalhos La pluie - projet pour un texte (1969), de Marcel Broodthaers, e I will not make any more boring art (1971), de John Baldessari. Lembrar esses trabalhos pioneiros de escrita para a câmera nos ajuda a colocar em cena algumas questões que atravessam também os vídeos de Marilá Dardot. Em La pluie, Broodthaers tenta escrever um texto, ao ar livre, enquanto a água da chuva cai sobre o papel, apagando a tinta e borrando as palavras (que o espectador nunca consegue ler). De certo modo, o filme trata da instabilidade ou impermanência da escrita no meio audiovisual. Ou, para retomar as reflexões de Paul Virilio, encena-se a tensão ente a estética da aparição e a estética do desaparecimento. Já o vídeo de Baldessari, em que o artista escreve repetidamente, durante 32 minutos, a frase I will not make any more boring art, aponta para a escrita como castigo escolar, punição. Com uma imagem entediante, em função da repetição, o artista faz justamente aquilo que promete não fazer mais. Desmorona-se a oposição do senso comum entre o regime textual (entediante, que requer esforço e concentração) e o regime audiovisual (divertido, de consumo fácil).

Por fim, sugerimos compreender os vídeos de Marila Dardot dentro da tradição da videoperformance. Vale lembrar que a consideração da escrita como performance teve seu lugar na décima terceira Documenta de Kassel, em 2012, quando escritores convidados deviam ocupar uma mesa do restaurante Dschingis Khan, para escrever diante do público. Sabe-se que, na videoperformance, da qual o público está ausente, o enfrentamento se dá com a câmera. Nos vídeos de Dardot, a escrita se constitui como performance e alcança sua intensidade na duração da imagem, na lentidão, na fixidez e na unicidade do plano-sequência, na presença enquadrada de um suporte e na continuidade intensiva do gesto de escrever.
Bibliografia

ASTRUC, Alexandre. Naissance d’une nouvelle avant-garde, la camera-stylo. L’Écran français. Paris: 1948.



COUTINHO, Mário Alves. Escrever com a câmera: a literatura cinematográfica de Jean-Luc Godard. Belo Horizonte: Crisálida, 2010.



FLUSSER, Vilém. A escrita – Há futuro para a escrita? São Paulo: Annablume, 2010.



KRAUSS, Rosalind. A voyage on the North Sea: art in the age of the post-medium condition. Londres: Thames & Hudson, 1999.



LYOTARD, Jean-François. Discours, figure. Paris: Klincksieck, 1971.



MACHADO, Arlindo (org.) Made in Brasil: três décadas do vídeo brasileiro. São Paulo: Itaú Cultural; Iluminuras, 2007.



PATO, Ana. Literatura expandida: arquivo e citação na obra de Dominique Gonzales-Foester. São Paulo: Edições Sesc SP: Associação Cultural Videobrasil, 2012.



VILA-MATAS, Enrique. Não há lugar para a lógica em Kassel. São Paulo: Cosac Naify, 2015.



VIRILIO, Paul. O espaço crítico. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1993.