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  Título
A fotografia de família no documentário "Diário de uma busca"
Autor
Patricia Cunegundes Guimaraes
Resumo Expandido
A fotografia de família é compreendida como um gatilho para acionar memórias afetivas. Cada foto guardada tem, atrás de si, uma história, embora seja uma história hierarquizada, em que, pelo menos visualmente, os momentos de fragilidade, dor e sofrimento familiares estão escondidos. Os álbuns de família, entendidos como “um conjunto de fotografias que compõem o imaginário documentado de um grupo atado por laços de intimidade – encerram uma temporalidade própria” (BUCCI, 2008).

Para Rouillé (2009), a fotografia seria um dispositivo munido do poder misterioso e divino de ressuscitar simbolicamente os mortos, de autorizar a volta dos corpos da morte para a vida, ressuscitar o que o tempo eliminou, de inverter o curso. Barthes (2009) reforça esta ideia, quando diz que as imagens não passam de um ponto de partida para percursos regressivos intermináveis e difíceis, de infinitas retomadas.

Para existir, a memória tem que ser compartilhada. Hirsch (2012) defende que fotografia de família pode funcionar entre o que chama de “memória pessoal” e “história social”, entre o mito público e o inconsciente pessoal. Segundo a autora, “a nossa memória nunca é totalmente ‘nossa’, nem as imagens são sempre representações não mediadas do nosso passado”. As fotografias de família compõem um importante material de pesquisa e investigação do passado. Cada vez mais, imagens da família têm-se tornado objeto de escrutínio em diversos campos, entre eles o cinema.

De acordo com Peixoto (2011), utilizando documentos fílmicos, jornais, fotografias, desenhos e testemunhos, eles (os filmes) reconstroem um momento da história, falam do passado através de “personagens” que são confrontados com sua própria memória. Para Peixoto (2011) biografias podem ser fontes metodológicas extremamente eficazes para a compreensão dos processos de construção de memória social.

O documentário "Diário de uma busca" (2010), da diretora Flávia Castro, cujo roteiro apresenta a história de seu pai, Celso Afonso Gay de Castro, militante de esquerda morto em 1984, apresenta um trabalho complexo de (re)constituição da memória. Apoiada no diário que escreveu desde pequena e em fotografias de família, cartas, documentos oficiais e recortes de jornais, Flávia Castro conduz, muito mais do que a história do pai, mas sua própria história.

A intenção real do filme, que vai muito além de tentar entender as circunstâncias da morte do pai, fica bem clara logo no início, quando Flávia, narradora do documentário, diz: “Mas durante muito tempo, pensar no meu pai significava pensar na sua morte. Como se pelo seu enigma e pela sua violência, ela tivesse apagado a sua história e, com ela, parte da minha vida”.

As fotografias de família – sejam guardadas em álbuns, esquecidas em caixas de sapato, expostas em porta-retratos ou ‘grudadas’ na geladeira – preservam nossa história ancestral e perpetuam memórias. Quando fotografamos nossos momentos familiares, normalmente criamos uma imagem idealizada das relações inter-familiares. No entanto, com o passar do tempo, a análise do conjunto de imagens revela camadas mais profundas, evocando lembranças que vão além do que o idealizado pelo fotógrafo e pelos fotografados à época. Uma fotografia de aniversário pode revelar, por exemplo, a relação conflituosa entre pais e filhos, entre irmãos; pode revelar distanciamento entre os fotografados, pode trazer à tona fatos não retratados, mas que estão impressos, em camadas ocultas, esperando um escrutínio.

Por isso, a importância do uso de fotografias de família como detonador de memória no que se pode chamar de “documentário de busca”.

Apesar de as memórias serem parte da vida de uma família específica, os sentimentos que elas despertam são universais. Neste sentido, o documentário Diário de uma busca, além de tentar reconstruir a vida de Celso Afonso Gay de Castro, consegue falar sobre todas as famílias que viveram o exílio e a repressão durante a ditadura militar.
Bibliografia

BARTHES. Roland. A Câmara clara. 13. ed., Lisboa: Edições 70, 2009.

BEZERRA, J.C. Nós, sujeitos autobiógrafos: uma história de narradores, romancistas e cineastas do Eu. Contracampo (UFF), v. 16, 2007.

BUCCI, Eugênio. Álbum de família – Meu pai, meus irmãos e o tempo. In: MAMMI, Lourenço e MORITZ SCHWARCZ, Lilia. 8x Fotografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

HIRSCH, Marianne. Family Frames – Photography narrative and postmemory. 2. ed., Cambridge: Harvard University Press, 2012.

KOSSOY, Boris. Fotografia & História – 4. ed. São Paulo: Ateliê Editorial, 2012.

PEIXOTO, Clarice Ehlers (org). Antropologia&Imagem volume 1. Rio de Janeiro: Garamond, 2011.

ROUILLÉ. André. A fotografia: entre documento e a arte contemporânea. São Paulo: Editora Senac, 2009.

VEIGA, R. O menor e o maior no cinema pessoal: Diário de uma busca. Elena e Mataram meu irmão. Revista da Associação Nacional dos Programas de Pós-

Graduação em Comunicação, v.17, n.3, set./dez. 2014.