Voltar para a lista
 
  Título
O herói na tela: José Martí e José Maceo no cinema histórico cubano
Autor
Ignacio Del Valle Dávila
Resumo Expandido
No ano 1968, o governo cubano celebrou o centenário do início da “Guerra de los diez años” (1868-1878), a primeira guerra de independência da ilha. Durante essas comemorações, as autoridades cubanas estabeleceram oficialmente, por meio de discursos, debates e editoriais de imprensa, uma conexão direta entre o processo de emancipação nacional do século XIX, a Revolução de 1959 e o regime estabelecido a partir dela. Segundo esse discurso oficial, as guerras de independência e a Revolução constituiriam diferentes etapas de uma mesma luta de libertação nacional.

Em razão dessas celebrações, o Instituto Cubano del Arte e Industria Cinematográficos (ICAIC) produziu um ciclo de filmes, conhecido como os “Cien años de lucha”, centrado nesses conflitos bélicos do século XIX. Todas essas produções, de maneira direta ou indireta, tecem vínculos entre esse passado e o governo revolucionário, estabelecendo paralelos entre as principais lideranças políticas e militares dessas duas temporalidades, o que desencadeia frequentemente em relatos alegóricos. Nesse sentido, eles são monumentos audiovisuais do passado que se inserem dentro da história oficial. Consideramos também que podem ser estudados a partir do conceito de “narrativa fundacional”, desenvolvido por Ismail Xavier (1997) com base nos trabalhos de Doris Sommer sobre os romances de fundação latino-americanos (2004). Esse conceito se aplica a relatos fílmicos sobre as origens – muitas vezes mitificadas – de uma comunidade nacional.

Entre os filmes dos “Cien años de luta”, podem ser citados os longas metragens de ficção Lucía (Humberto Solás, 1968), La odisea del general José (Jorge Fraga, 1968) La primera carga al machete (Manuel Octavio Gómez, 1969) e Páginas del diario de José Martí (José Massip, 1971). O objetivo desta apresentação é estudar esse ciclo e as suas relações com a política cultural do regime cubano a partir de uma análise comparativa dos dois longas-metragens menos pesquisados desse ciclo: La odisea del general José, sobre um episodio da vida de José Maceo durante a segunda guerra de independência (1895), e Páginas del diario de José Martí, que propõe paralelos entre José Martí e Fidel Castro a partir do jornal de guerra escrito pelo primeiro deles.

Primeiramente, estabeleceremos alguns dos principais aspetos da política cultural cubana do final dos anos 1960, que determinou o contexto de produção desses filmes. Essa política cultural, inserida na chamada “Ofensiva revolucionária” (Villaça, 2010), se caracterizou por um maior controle da liberdade de expressão dos artistas e intelectuais cubanos que começavam a se mostrar críticos com o regime; bem como por uma exaltação pública do trabalho voluntário nas safras de açúcar e café e de valores como o esforço e o sacrifício “revolucionários”. Posteriormente, a partir da análise fílmica dos dois longas metragens – com foco no estudo da representação dos heróis históricos –, estudaremos a maneira como os filmes se relacionam com o projeto ideológico oficial. A abordagem se centrará nas profundas diferenças entre a estrutura do relato e a mise-en-scène nos dois filmes, o que leva à impossibilidade de afirmar que existiu uma estratégia unívoca na hora de representar a independência cubana, embora os dois filmes façam parte do mesmo ciclo. Por outro lado, a estreia de Páginas del diario de José Martí, de Massip, foi adiada pelo ICAIC, o que pode ser visto como um receio, por parte das autoridades culturais, em relação à interpretação do passado feita pelo realizador (Juan Navarro, 2008). Através da análise comparativa de ambos filmes, nos aprofundaremos nesse aspecto, mostrando contradições entre o filme de Massip e o discurso mais oficial presente em La odisea del general José, de Fraga.

Esta apresentação se insere numa pesquisa de pós-doutorado sobre os longas metragens de ficção do ciclo dos “Cien Años de Lucha” desenvolvida na Pós-Graduação em Multimeios do Instituto de Artes da Unicamp com uma bolsa PNPD Capes.
Bibliografia

CHANAN, Michael. Cuban Cinema. 2. ed. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2004. GARCÍA BORRERO, Juan Antonio. Cine cubano de los sesenta: mito y realidad. Madri: Ocho y Medio, Libros de cine, 2007.

JUAN-NAVARRO, Santiago. “¿Cien años de lucha por la liberación?: Las guerras de la Independencia en el cine de ficción del ICAIC”. Cine y revolución cubana: luces y sombras. Archivos de la Filmoteca, n. 59, p. 142-161, 2008.

________. “La primera carga al machete (Manuel Octavio Gómez, 1969). Cine, mito y revolución”. In: AMIOT, Julie e BERTHIER, Nancy (Dir.). Cuba : cinéma et révolution. Lyon: Le Grimh-LCE-Grimia, 2006. 105-113.

SOMMER, Doris. Ficções de fundação: os romances nacionais da América Latina. Ed. UFMG; 2004 [1991].

VILLAÇA, Mariana. Cinema cubano: revolução e política cultural. São Paulo: Alameda, 2010.

XAVIER, Ismail. A personagem feminina como alegoria nacional no cinema latino-americano. Balalaica, Revista Brasileira de Cinema e Cultura, n. 1, 1997, p. 84-101