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  Título
Compromisso e vulnerabilidade no díptico gay-hétero de Andrew Haigh
Autor
Rodrigo Ribeiro Barreto
Resumo Expandido
Desde 2009, Andrew Haigh vem se destacando no circuito audiovisual LGBT. O acúmulo das funções de direção, escrita e edição no cinema independente e o recente acréscimo da posição de produtor executivo no competitivo campo televisivo estadunidense demonstram que o inglês angariou considerável controle criativo. Como parte de uma pesquisa sobre sua trajetória, propõe-se uma análise conjunta de Weekend (2011) e 45 Anos (2015), pressupondo uma complementaridade entre as obras, tanto temática quanto estrutural. Os longas – que tratam de aspectos do compromisso afetivo-amoroso – parecem representantes de pólos opostos: gay/hétero; jovem/velho; princípio de relação/relacionamento estabelecido etc.. Contudo, Haigh matiza e subverte as expectativas de sentidos usualmente atribuídos a tais oposições. Em marcada inversão de representações convencionais, a pegação gay, pontual e efêmera, passa a prenunciar possibilidades românticas futuras, enquanto o casamento heterossexual, estável e respeitável, enfrenta uma fissura talvez intransponível por conta de acontecimentos pretéritos.

Há, em Weekend e 45 Anos, uma flagrante simplicidade, uma contenção de elementos bastante operativa para a programação emocional buscada por tais dramas contemporâneos: depurados de julgamentos morais, de excessos sentimentais, mas, ainda assim, mobilizadores. Apela-se para um reduzido número de personagens importantes, envolvidos em ações as mais triviais que se prestam a destacar o apuro de diálogos calibrados para gerar um sentimento de familiaridade. É marcante ainda a função dos finais indefinidos como prolongadores dos vínculos afetivos do público. Mesmo gradativamente munidos de muitos elementos das situações exibidas, mesmo bastante colados à intensidade dos personagens, espectadores/as não veem resolvidos os impasses centrais da trama.

Por conta de suas semelhanças ou especificidades complementares, os longas são abordados como uma espécie de díptico cinematográfico, tendo as identificações estilísticas do trabalho de Haigh e de sua posição no contexto produtivo como estratégias norteadoras da análise. Como indica Carroll (2011), trata-se de encarar a questão do estilo não apenas em sua acepção descritiva ou classificatória, mas principalmente explicativa, ou seja, como um modo de deslindar a organização formal do filme. Nessa direção, vale também a contribuição de Jenny (2000) ao apontar que, na prática, existem estratégias de reiteração, de convergência e de destaque que orientam para a recepção de uma característica como traço estilístico.

Adicionalmente, a inserção do cineasta no campo de produção pode ser esclarecedora tanto dos rumos de suas escolhas quanto das possibilidades abertas para sua atuação. No contexto britânico, os filmes de Haigh são movidos por uma cotidianidade, que o afasta das suntuosas reconstituições de época, das idealizadas comédias românticas e dos realistas engajados, pelos quais os seu país é bem conhecido. Em Weekend, é feita inclusive menção, jocosa, aos dois primeiros grupos mencionados.

Sendo gay, o realizador foi comparado a predecessores do New Queer Cinema, como os compatriotas Derek Jarman e Isaac Julien, cujas obras são mais alegóricas, metafóricas e diretamente confrontacionais. O trabalho de Haigh insere-se, no entanto, em uma nova vertente do cinema queer, concentrada em transformações micro da intimidade LGBT sem, contudo, deixar de tensionar a possibilidade de assimilacionismo à normatividade. Nota-se assim o pertencimento a minorias como terreno para uma variedade de perspectivas autorais (Silverman, 2003; Metz, 2003). Mais ainda, há indícios de uma extensão dessa sensibilidade para o enfoque da relação hétero em 45 Anos: a vulnerabilidade da protagonista não seria, p. ex., provocada pela descoberta de que seu marido mantinha, “no armário”, um grande amor por outra mulher? A ponderação de Giddens (1993) sobre tipos consensual e romântico de amor auxilia a análise temática de tais percursos íntimos.
Bibliografia

CARROL, Noël. Style. In: LIVINGSTON, P.; PLATINGA, C. (ed.). The Routledge companion to philosophy and film. New York: Routledge, 2011, p. 268-278.

HANSON, Ellis (ed.). Out Takes: essays on queer theory and film. London: Duke University Press, 1999, 364 p.

GIDDENS, Anthony. A transformação da intimidade: sexualidade, amor e erotismo nas sociedades modernas. São Paulo: Editora UNESP, 1993, 228p.

JENNY, Laurent. Du style comme pratique. Fabula. Disponível em: . Acesso em maio 2016.

METZ, Walter. John Waters goes to hollywood: a poststructural authorship study. In: GESTNER, D.; STAIGER, J. (ed.). Authorship and Film. New York: Routledge, 2003, p. 157-174.

MURRAY, Raymond. Images in the dark: an encyclopedia of gay and lesbian film and vídeo. New York: Plume, 1996, 599 p.

SILVERMAN, Kaja. The female authorial voice. In: WEXMAN, V.. Film and authorship. London: Rutgers University Press, 2003, p. 50-75.