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  Título
A gravidez no filme Olmo e a Gaivota: cinema híbrido e intimidade
Autor
Bárbara de Pina Cabral
Resumo Expandido
Os estudos de gênero na teoria do cinema vem se consolidando desde as décadas de 1960 e 1970. Após a publicação do ensaio Visual pleasures and narrative cinema, da teórica britânica Laura Mulvey, na revista Screen em 1977, a discussão sobre o olhar masculino no cinema narrativo clássico começa a se adensar. A teoria de Mulvey utiliza conceitos da psicanálise para discutir o deslocamento do olhar em relação ao gênero. Em seu texto, são abordados conceitos como voyeurismo, fetichismo, castração e narcisismo. Influenciados pelo movimento pós-estruturalista e pelas revoluções comportamentais que marcaram o século XX, os estudos culturalistas analisam as construções imagéticas sociais por meio das representações criados pela cultura de massa. Nesse sentido, os estudos de gênero se complexificam ao ter como base não apenas a psicanálise, mas as ciências sociais. Deste modo, a representação da mulher no cinema é compreendida como uma possibilidade dos estudos de gênero, pois permite a compreensão de imaginários em relação ao que foi identificado como feminino.

Em muitas das narrativas cinematográficas, nota-se a figura da mãe como o ser que se sacrifica em prol dos filhos. É preciso relativizar esta noção de maternidade. Até que ponto há a morte e o nascimento de uma mulher quando se experencia o processo de gravidez? Como isto é representado pelos meios de comunicação? Se a sexualidade feminina foi encarada, e ainda é, como um tabu; a gravidez faz parte dessa construção e também de um tabu. Virgem Maria, a mãe mais conhecida da história, pelo menos entre os países cristãos, é desprovida de qualquer indício de sexualidade. A imagem da virgem enquanto mãe suscita uma ideia de pureza e delicadeza em relação à gravidez – contribuindo para o próprio discurso hegemônico sobre o conceito de feminilidade. A historiadora norte-americana Joan Scott sinaliza que o discurso por trás da maternidade tinha como intenção afastar a mulher da esfera pública: “Por exemplo, a maternidade foi frequentemente oferecida como explicação para a exclusão das mulheres da política [...] quando de fato a relação de causalidade se dá ao inverso” (SCOTT, 2005, p.18-9). Artières, em a História Social da Criança e da Família (1976), descreve como o núcleo familiar extenso começa a ficar cada vez menor a partir da Era Vitoriana. Neste contexto, a mãe assume os afazeres domésticos e se torna responsável pela a educação dos filhos, enquanto o pai tem a missão de prover sustento à família. A imagem da mãe passa a ser construída neste sentido: a mulher casta, cuidadora dos filhos, realizada no cumprimento da maternidade. Na maior parte das narrativas, a gravidez ainda é vista como um período puro e sem conflitos, como uma dádiva. Nas produções brasileiras, o tema é representado apenas como um estágio sem centralizar o processo de gravidez e as subjetividades que estão presentes nele. Diante deste contexto, o filme Olmo e a gaivota (2015), de Petra Costa e Lea Glob aparece como elucidação a problemática.

Por meio do cinema que mistura ficção e documentário, Petra Costa e Lea Glob buscam representar as complexas vivências da personagem Olivia Corsini, que interpreta a si mesma. A partir da escolha pela narrativa híbrida, é possível alcançar níveis de aproximação com a complexa experiência pela qual Olivia está passando. Neste jogo de representações, o que se revela é a própria “língua da personagem”. Neste sentido, poder-se-ia falar de um discurso indireto livre, que “trata da imersão do autor na alma de sua personagem e da adoção, portanto, pelo autor não só da sua psicologia como da língua daquela” (PASOLINI, 1982: 143). A mistura entre ficção e documentário permite o acesso a intimidade. As representações são construídas sobre sujeitos reais e que estão em constante transformação enquanto personagens. Para além das questões de representação, Olmo e a gaivota alcança o nível da performance dentro da atmosfera criada pelos dispositivos cinematográficos.
Bibliografia

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