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  Título
A ESTÉTICA DO SOM FÍLMICO:ANÁLISES DO RUÍDO NA OBRA DE LUCRECIA MARTEL
Autor
Roberta Ambrozio de Azeredo Coutinho
Resumo Expandido
Grande parte dos regimes estéticos que permeiam a linguagem cinematográfica contemporânea reproduz uma tendência que se consolidou ainda no período clássico: O domínio da representação imagética sob a sonora. Tal perspectiva se apresenta como uma herança da tradição visual que notadamente permeia os processos comunicacionais no Ocidente a qual, segundo McLuhan (1977), estaria fundada na transição de uma cultura oral para uma cultura escrita no âmbito social da circulação de informações consolidada com a invenção da imprensa e disseminada na dimensão artística.

No contexto cinematográfico este domínio da visão é notório, uma vez que aos elementos audíveis, tradicionalmente, são direcionadas funções diegéticas de mero reforço mimético à imagem. Altman (1992) aponta e desconstrói “falácias” referentes ao som fílmico que contribuíram para consolidar esta tendência, interessa-nos especialmente o questionamento do autor acerca da “falácia representativa”, a qual indica uma limitação expressiva inerente ao som, apto a reproduzir, mas não a representar o “real” do material captado. Para Altman (1992) a captação sonora é capaz de ser igualmente inventiva à imagética, uma vez que não se limita ao mero registro, podendo resignificar sua matéria. Tal argumento encontra-se fortalecido pela tecnologia digital a qual ampliou os meios de experimentações sônicas.

Dentro desta perspectiva, é possível localizar produções que subvertem o modelo clássico dominante ao atribuírem à banda sonora um papel de destaque na construção estética ficcional, é o caso da obra da cineasta argentina Lucrecia Martel, campo de análise desta pesquisa. “[...] Lucrecia enfatiza o som como o maior responsável pela característica sensitiva de seus filmes [...]” (BARRENHA, 2011, p.54). O interesse do artigo recai especificamente sobre o uso do ruído, nosso objeto de estudo, entendido aqui como todo som do filme que não seja nem voz, nem música.

Podemos supor que esta última seja a faceta da banda sonora mais valorizada esteticamente uma vez que convencionalmente é explorada como uma espécie de guia sensorial do público. Já o ruído é timidamente trabalhado em tal dimensão da experiência fílmica. Chion (2011) aponta uma possível justificativa para este quadro ao afirmar que ao contrário da música, componente identificado culturalmente pelo público, “O ruído é um elemento do mundo sensível totalmente desvalorizado no plano estético [...]” (Chion, 2011, p.116).

Na linguagem fílmica, a união entre os avanços tecnológicos e as intenções estilísticas latentes dos realizadores é a fórmula ideal para o aparecimento de novos regimes estéticos, como é caso o do hiper-realismo sonoro, base analítica deste artigo. Neste primeiro momento, tal instância pode ser compreendida como uma forma de representação fílmica que busca transgredir a relação redundante hegemônica entre a dimensão visual e a sônica ao se basear na manipulação criativa das características do som, oferecendo assim ao espectador uma espécie de “hiper-amplificação perceptiva do objeto”. (CAPPELER, 2008, p.65). Nesse contexto, nos filmes analisados, o ruído hiper-realista ao ser direcionado a exercer uma função estética autônoma se propõe a transcender, e não apenas reforçar os sentidos visuais, se diferenciando assim do hiper-realismo hollywoodiano que parece potencializar o áudio sempre em função da imagem.

Dessa maneira, por meio da investigação dos recursos estilísticos sônicos utilizados nos filmes de Martel, o artigo intenta compreender como esses momentos sonoros de exploração hiper-realista do ruído interferem na configuração estética da diegese? De que maneira os ruídos hiper-realistas atuam na produção de sentido dos filmes analisados? Por meio do conjunto de procedimentos que compõe a análise fílmica, o presente artigo pretende estudar cenas da filmografia da cineasta argentina onde o ruído se destaque enquanto elemento significativo para os engendramentos estéticos ali propostos.
Bibliografia

ALTMAN, Rick. Sound Theory / Sound Practice. Nova Iorque:Routledge, 1992.



BARRENHA, Nathalia. A experiência do cinema de Lucrecia Martel: Resíduos do tempo e sons à beira da piscina. 2011. Dissertação de conclusão de curso (Pós-Graduação em Multimeios) – Instituto de Artes da Unicamp, Campinas, 2011. [Orientador: Prof. Dr. Antonio Fernando da Conceição Passos]. Disponível em: < http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/document/?code=000837604 >. Acesso em: 25. Jan. 2016.



CAPELLER, Ivan. Raios e trovões: hiper-realismo e sound design no cinema contemporâneo. In: CATÁLOGO da mostra e curso O som no cinema. Rio de Janeiro: Tela Brasilis/Caixa Cultural, 2008. P. 65-70.



CHION, Michel. A Audiovisão. Som e Imagem no cinema. Lisboa: Texto & Grafia, 2011.



MCLUHAN, Marshall. A galáxia de Gutemberg. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1977.