Voltar para a lista
 
  Título
Os níveis de narração no filme Dentro da Casa, de François Ozon
Autor
Marília Xavier de Lima
Resumo Expandido
Propõe-se aqui analisar a construção de dois espaços de narração distintos no filme Dentro da Casa, de François Ozon, 2012. Por meio da convergência da literatura com o cinema no filme aponta-se um plano narrativo no qual o narrador apresenta os personagens e suas ações, comportando-se assim como agente da construção do mundo ficcional, e um outro plano construído pela intervenção dos personagens na história. Há, nesse sentido, um narrador que, através da intertextualidade, insere citações literárias acrescentando ao filme informações extradiegéticas sobre a construção e o desenvolvimento dos conflitos, dando, assim, o aspecto metalinguístico do filme. Com isso, o estatuto do narrador-principal (Gaudreault, 2009) do universo ficcional assume os significados advindos dos elementos intertextuais e os narradores-personagens guiam a história. Isso faz com que o espectador questione os pontos-de-vista da narrativa, mantendo-o em uma indiscernibilidade entre o que é do mundo ficcional do filme e o que foi imaginado pelos personagens.

Pensar as formas de contar uma história no cinema, aborda aspectos dos estudos de narratologia que já apreendem a narrativa como algo extracinematográfico (Aumont, 2011). O filme Dentro da Casa possui um narrador que além de apresentar os personagens, insere citações a autores clássicos da literatura e seus artifícios textuais. A intertextualidade aqui pode ser entendida como estratégia de mostrar ao espectador as diversas possibilidades de se construir uma narrativa. Ferramentas estas como a criação dos conflitos, as motivações de cada personagem e suas relações recíprocas. Logo, a arte da escrita fica visível no personagem do aluno, que é levado pelo professor Germain (que torna-se um orientador do aluno) a desenvolver sua história sobre a família de um colega de escola.

A sequência em que é mostrada a maneira como o aluno elabora sua redação, apresentando os caminhos que os conflitos poderiam seguir e os ensinamentos do professor, desnuda a própria forma como a narrativa do filme foi representada. É nesse âmbito que o filme mostra seu próprio discurso, que rompe com a ilusão da tela, o narrador mostra suas estratégias com a proposta metalinguística de indicar a relação voyeurista do espectador no espetáculo. Como em Janela Indiscreta, de Hitchcock, Germain se comporta como Jeff, ao ajudar o aluno na criação da história, ele transfere seu desejo pela escrita, torna-se um voyeur. Para Ismail Xavier (p.263, 1996), “a lógica não reconhecida do espetáculo é esta transferência pela qual sigo a experiência de meu representante, não para me chocar com sua transgressão e chegar aos bons sentimentos, mas para fruir de um prazer vicário de voyeur (...)”. O aluno funcionaria então como um bode expiatório para que Germain se realizasse como escritor, assim como Jeff transferiu para o assassino vizinho sua culpa pelo desejo de não se casar. A referência a Janela Indiscreta se evidencia no plano final do filme, no qual professor e aluno, sentados em um parque, criam juntos uma história sobre os moradores de um prédio em frente, as cortinas se fecham e o filme acaba.

Seriam essas histórias criadas pelos personagens dentro do filme que passam a direcionar os rumos da narrativa. Estabelece-se então dois planos narrativos, aquele da trama do filme e aquele da história criada pelos personagens. No entanto, tal separação fica indiscernível para o espectador, que já não sabe o que é da história do filme e o que foi inventado pelos personagens, uma vez que há a interpelação dos personagens nas cenas da história escrita pelo aluno e também a ambiguidade diante do que foi imaginado ou vivido por ele. Esses narradores-personagens se comportariam como narradores intradiegéticos, que participam e narram a história. Através desse modo de narrar, tendo dois níveis de narração, o espectador questiona os pontos de vista da história, quebrando assim com a ilusão do filme, o que o explana como espetáculo.
Bibliografia

AUMONT, Jacques. A estética do filme. Campinas: Papirus, 1995.

____. O cinema e a encenação. Lisboa: Texto & Grafia, 2008.

BAZIN, André. O cinema: ensaios. São Paulo: Brasiliense, 1991.

BORDWELL, David, La narración en el cine de ficción. Barcelona: Paidós, 1996.

GAUDREAULT, André e JOST, François. A narrativa cinematográfica. Brasília: EDU – UNB, 2009.

STAM, Robert, BURGOYNE, Robert, FLITTERMAN-LEWIS e Sandy. Nuevos conceptos de la teoria del cine, Barcelona: Paidós, 1992.

STAM, Robert. A literatura através do cinema: realismo, magia e a arte da adaptação. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.

XAVIER, Ismail (org.). O Cinema no Século. Rio de Janeiro: Imago, 1996.