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  Título
O cinema meramente interessante de Hong Sang-Soo
Autor
Vitor Gurgel de Medeiros
Resumo Expandido
Os longas metragens ficcionais dirigidos pelo cineasta sul coreano Hong Sang-Soo acompanham personagens artistas e intelectuais que, por algum motivo, têm seus cotidianos suspensos. Seja devido a uma viagem, a um hiato entre dois trabalhos, à espera por inspiração artística ou alguma outra premissa, os protagonistas estão em busca de distrações e oportunidades para preencher o vazio em que se encontram: eles caminham (em praias, ruas, parques), embebedam-se, conversam e fazem sexo. Este conjunto restrito de elementos repete-se nos filmes e funciona como base para alicerçar sutis experimentações estéticas através do estabelecimento de códigos formais com pequenas perturbações que, por sua vez, não produzem um sentido claro e podem provocar no espectador uma sensação de inquietude, instabilidade e leve confusão.



Para o presente trabalho, proponho diálogos entre os filmes de Hong e a categoria estética “meramente interessante”, apresentada por Sianne Ngai em seu livro Our Aesthetic Categories. Além de abordar as categorias de zany e cute - que também chamam atenção para suas próprias fraquezas, frivolidade ou relativa falta de impacto -, Ngai traça uma trajetória histórica do “interessante” na cultura ocidental, da literatura alemã do século XVIII à arte conceitual em meados do século XX. Apesar da autora não apontar para intercessões com o cinema, as obras analisadas são descritas como friamente reguladas por princípios racionais, que pretendem proporcionar ao indivíduo a possibilidade de transitar entre diversas sensações sem se fixar permanentemente em nenhuma, “a cintilação de afeto, leve e difícil de perceber, que acompanha nosso reconhecimento de pequenas diferenças de uma norma” (NGAI, 2012, p. 18). Para traçar aproximações entre os filmes em questão e o tipo de engajamento acima descrito, podemos analisar suas estruturas narrativas e procedimentos formais. Não faço aqui um recorte dentro da filmografia pois não pretendo dissecar filmes específicos, mas sim observar algumas repetições e diferenças no conjunto da obra.



Proponho pensarmos a encenação a partir das ferramentas apresentadas por John Gibbs (2002) e das funções de estilo propostas por David Bordwell (2008). Ressalto o constante tensionamento dos códigos realistas na obra de Hong, que salta aos olhos especialmente nas relações entre os personagens, o espaço e a câmera: as cenas são marcadas de maneiras quase teatrais, voltadas para um ponto de vista privilegiado da câmera, que registra as ações em planos-sequência fixos, realizando apenas movimentos de panorâmica e zoom. Percebe-se a constante oscilação entre a função de estilo “denotativa”, associada à objetividade, e a “decorativa”, em que o estilo pode operar por si mesmo, criando “climas discretos e padrões mais envolventes por seus próprios meios, levando-nos a descobrir uma ordem escondida ou a notar pequenas diferenças.” (BORDWELL, 2008, p. 59-60).



Analisando as instâncias narrativas a partir de Chatman (1980) e Friedman (2002), podemos identificar um narrador que provoca encontros e coincidências nas vidas dos personagens como cobaias em um experimento, cujos desdobramentos o espectador é convidado a acompanhar friamente, sem ser induzido a sentir as emoções daqueles seres ficcionais. Enquanto isso, são realizados pequenos gestos estranhos no fluxo das narrativas que perturbam uma possível estabilidade e relegam ao espectador o trabalho de montar em sua mente as conexões entre os personagens e associações entre os eventos; assim, o filme propõe uma espécie de jogo que pode proporcionar ao observador um estado de tensão (leve irritação ou excitamento), levando-o ao interesse para continuar se relacionando com a obra durante a projeção e, principalmente, depois que esta termina. Porém, os filmes são construídos de tal forma que este gesto racional tende ao vazio e, por mais que seja possível chegar a algumas conclusões, dificilmente a fruição passará por uma sensação de arrebatamento ou plenitude.
Bibliografia

BORDWELL, David. Figuras traçadas na luz: a encenação no cinema. Tradução de Maria Luiza Machado Jatobá. Campinas: Papirus, 2008.

CHATMAN, Seymour. Story and Discourse. Cornell University Press, 1980.

FRIEDMAN, Norman. O ponto de vista na ficção: O desenvolvmento de um conceito crítico. Tradução de Fábio Fonseca de Melo. In: Revista USP, São Paulo, n. 53, p. 166-182, 2002.

GIBBS, John. Mise-en-Scène: Film Style and Interpretation, Londres: Wallflower Books, 2002.

NGAI, Sianne. Our Aesthetic Categories: Zany, Cute, Interesting. Harvard University Press, 2012.