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  Título
Diálogos entre o cinema e a videoinstalação na obra de Harun Farocki
Autor
Jamer Guterres de Mello
Resumo Expandido
Em meados da década de 1990, o artista e cineasta alemão Harun Farocki iniciou um movimento de transformação em sua carreira ao produzir obras para serem exibidas em espaços expositivos de museus e centros culturais. Estava em jogo não apenas uma questão técnica de produção com novos materiais e exploração de diferentes formatos de projeção, distintos daqueles utilizados comumente no cinema, mas também a distribuição e circulação da sua obra. Seus filmes eram pouco assistidos, exibidos geralmente em festivais e mostras específicas. A videoinstalação surgia como uma possibilidade de expor seu trabalho durante um período maior de tempo e em um espaço com maior circulação de espectadores em relação ao circuito comercial de cinema, atraindo um público mais interessado em linguagens experimentais como as da videoarte.

Em duas de suas últimas obras, Farocki investigou a produção e distribuição das imagens originadas por tecnologias digitais e, sobretudo, a intensa influência estética e política que produzem em nosso cotidiano social. Em ambas o artista utilizou um dispositivo com quatro canais de projeção dispostos no mesmo ambiente, provocando a interação entre imagens que se repetem e se interferem em múltiplas telas. Em “Serious Games” (2010), explorou atividades de imersão em realidade virtual aplicadas em soldados norte-americanos nas guerras no Iraque e no Afeganistão. Algumas cenas de guerra são recriadas e simuladas com a linguagem computacional para treinamento antes de combates reais ou em situações em que os soldados são obrigados a repetir experiências traumáticas com objetivo terapêutico. Já em “Parallel” (2014), através de um exame minucioso de detalhes da computação gráfica e de descrições pontuais sobre a evolução dos games no decorrer das últimas décadas – como as mudanças das formas de representação do movimento dos mais variados objetos, o que chama de “novo construtivismo” – Farocki conseguiu ampliar a reflexão sobre a produção visual ao associar que uma imagem pode servir de modelo para a criação de novos tipos de imagens.

Essas obras nos instigam a pensar se, com a computação gráfica, seria possível criar imagens capazes de superar os modelos de representação da realidade, uma questão tão cara à pintura, à fotografia e ao cinema. A imagem computacional seria, portanto, um outro nível de realidade? As imagens computadorizadas estariam superando as imagens em movimento do cinema? A partir da emergente expansão do dispositivo cinematográfico a outros domínios estéticos e da presença constante da experiência do cinema no contexto artístico contemporâneo, o objetivo desta proposta é discutir as mudanças no sistema de produção das imagens em função do avanço das novas tecnologias. Para tanto, seguiremos algumas propostas de autores como Volker Pantenburg, Raymond Bellour e Philippe Dubois, entre outros.

Assim, este trabalho procura explorar dois eixos definidores. O primeiro deles é o deslocamento de Farocki do âmbito do cinema para o espaço expositivo, que o leva a produzir videoinstalações. Nesse sentido, o objetivo é discutir algumas questões que envolvem o uso de tecnologias de projeção, das condições de produção, distribuição e consumo das imagens em um contexto para além do dispositivo cinematográfico. A intenção é de tentar perceber quais as mudanças processuais e perceptivas proporcionadas pelas transformações técnicas geradas por novas lógicas de criação e de circulação das imagens a partir das tecnologias eletrônicas e digitais. O segundo eixo são as próprias obras, um foco específico nas relações construídas entre as imagens digitais (operativas) em suas articulações específicas e os recursos técnicos utilizados por Farocki, um prolongamento da reflexão teórica que o próprio artista constrói a partir das dimensões estéticas e políticas colocadas em jogo.
Bibliografia

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