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  Título
Convergências entre crítica e cineasta na recepção de O Som ao Redor
Autor
Wanderley de Mattos Teixeira Neto
Resumo Expandido
Os discursos dos sujeitos de um determinado espaço social a respeito das suas práticas trazem indícios dos processos coletivos de atribuição de valor a elas. Assim, uma análise das “falas” dos agentes que atuam no setor cinematográfico a respeito dos filmes pode nos levar às razões pelas quais determinados títulos e modelos de produção são valorizados em detrimento de outros. Tratam-se de avaliações distintivas feitas por representantes de grupos sociais que possuem preferências por determinadas práticas e, consequentemente, predisposições a certos julgamentos (BOURDIEU, 2011, 2013).



Assim, tendo como premissa a compreensão de que, em seus discursos acerca dos filmes, críticos e diretores afirmam suas identidades sociais através da exposição de suas preferências (FRITH, 1996; MARTINO, 2010), o intuito dessa análise é compreender os posicionamentos dessas instâncias sobre o cenário cinematográfico brasileiro de início do século XXI a partir de um estudo de caso que envolve o longa-metragem O Som ao Redor (2012). O corpus de análise foi composto por críticas de três jornais de grande circulação no país (Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e O Globo) e depoimentos do diretor, extraídos de reportagens e entrevistas, que tiveram o longa-metragem como pauta e que foram divulgados nesses mesmos veículos, compreendendo um total de vinte textos.



Com tal intuito, o trabalho adotou como norte analítico discussões teóricas sobre os critérios valorativos utilizados, com frequência, na avaliação das expressões criativas e fatores que influenciam suas formações. Entre elas, destacam-se: a) a percepção reiterada de uma valorização social do caráter artístico das coisas (BENJAMIN, 1994; VALVERDE, 2007); b) a delicada relação entre profissionais da área, sobretudo críticos, com as produções do seu próprio país, fazendo com que a recepção de uma obra nacional propicie posicionamentos sobre temas como as políticas de produção, distribuição e exibição (BERNARDET, 2011); e c) a noção de que os discursos sobre as obras são integrantes de um sistema de interações sociais sobre o cinema, no qual os sujeitos interagem a respeito das suas próprias leituras sobre os filmes através de recursos fornecidos pelos media, ou seja, um contexto de recepção marcado pela sociabilidade midiatizada (BRAGA, 2006).



Na análise do corpus, percebe-se que, ao exporem suas percepções sobre O Som ao Redor através de uma valoração da obra, o diretor do filme e a crítica acabam colocando em destaque uma convergência de opiniões sobre o título e o seu contexto de realização cinematográfica. Os referidos agentes alçam a obra a categoria de representante máximo de um cinema autoral e de qualidade artística, distinguindo-o valorativamente do modelo estandardizado e de forte apelo popular da Globo Filmes representado na ocasião por títulos como De Pernas pro Ar 2 e Assalto ao Banco Central. Há, portanto, um cenário de consenso que confere valor a O Som ao Redor pois entende-se que, diferente das produções correntes no país, o longa estreita os seus vínculos com um modelo cinematográfico comumente valorizado pelas referidas instâncias discursivas.



A análise em questão, portanto, põe em relevo um sistema de interações sobre a obra que expõe um cenário de convergência de opiniões entre vetores que, no caso, possuem entendimentos semelhantes sobre modos considerados por eles como os mais “certos” de se fazer cinema no Brasil. Todo esse movimento percebido ao longo da cobertura midiática de O Som ao Redor contribuiu para um processo de significação social da obra. A partir da referida análise, entendemos que disposições sociais acabam determinando o apreço ou a rejeição dos sujeitos discursivos por filmes e modelos de produção cinematográfica nos moldes ou opostos ao título, o cinema independente pernambucano e as produções populares de forte influência televisiva com o selo empresarial Globo Filmes, respectivamente.
Bibliografia

BENJAMIN, Walter. A obra de arte na época da sua reprodutibilidade técnica. In: ______. Obras escolhidas: Magia e técnica, arte e política. 7 ed., São Paulo: Brasiliense, 1994

BERNARDET, Jean-Claude.Trajetória crítica. São Paulo: Martins Fontes, 2011.

BOURDIEU, Pierre. A distinção: crítica social do julgamento. Porto Alegre: Zouk, 2013.

____. Razões Práticas: Sobre a teoria da ação. Campinas: Papirus, 2011.

BRAGA, José Luiz. A sociedade enfrenta sua mídia: Dispositivos sociais de crítica midiática. São Paulo: Paulus, 2006

FRITH, Simon. The Value Problem in Cultural Studies. In: ______. Performing Rites: On the value of Popular Music. Cambridge: Harvard University Press, 1996

MARTINO, Luís Mauro Sá. Comunicação e identidade: Quem você pensa que é?. São Paulo: Paulus, 2010.

VALVERDE, Monclar. Estética da Comunicação: Sentido, forma e valor nas cenas da cultura. Salvador: Quarteto Editora, 2007.