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  Título
As reterritorializações no cinema de Adirley Queirós
Autor
Eduardo Antonio de Jesus
Resumo Expandido
Mais recentemente no cinema brasileiro vemos um expressivo conjunto de obras tomar o espaço, os territórios e a própria vida na cidade como elementos constituintes e fio condutor dos filmes. O espaço assume um protagonismo, deixando de ser apenas um cenário ou pano de fundo onde acontecem as ações narrativas. As tensões típicas das disputas territoriais na cidade, bem como as dinâmicas do espaço são fortemente acionadas em filmes contemporâneos como “Avenida Brasília Formosa” (2010) e “Um lugar ao sol” (2009) de Gabriel Mascaro, “Recife frio” (2009) e “O som ao redor” (2012) de Kleber Mendonça, “O céu sobre os ombros” (2011) de Sérgio Borges, “A cidade é uma só” (2011) e “Branco sai, preto fica” (2014) de Adirley Queirós. Estes filmes, entre outros, revelam a cidade e suas espacialidades acionando um potente conjunto de relações sociais, políticas e culturais que ficam longe das representações que mostram a cidade como um lugar de compras, encontros felizes e apaziguantes. A cidade nestes filmes é representada como um complexo campo de tensão entre diversas forças e poderes que disputam não apenas a visibilidade, mas também a produção de sentido e de subjetividades criando formas de resistência aos gestos do capitalismo contemporâneo que tentam fazer do espaço urbano massa de manobra.

Se historicamente vemos a cidade ser celebrada em inúmeros filmes em abordagens críticas ou não, hoje podemos perceber, como Jean-Louis Comolli, que “estamos no momento em que as cidades reais preferem essa exaltação, essa cinegenia, e começam a se parecer com a sua versão filmada. Triunfo do espetáculo perceptível também na mutação dos cenários cotidianos, cada vez mais conforme a tipologia que o cinema propõe deles, à imagem, como dizemos, aquela que os filmes fixaram” (COMOLLI, 2008, p.179). Para além da precisa inferência de Comolli, a cidade hoje se multiplica em inúmeras outras imagens. Multiplicaram-se as telas e o cinema ampliou sua abrangência para além da sala de exibição. A imagem em movimento invadiu nossas vidas com o uso dos dispositivos móveis com acesso a internet povoando e redimensionando as experiências do urbano e da vida cotidiana, que nos assediam intensamente na produção de subjetividade. A imagem habita e reconfigura os modos de ser dos territórios urbanos nos acionando o tempo todo em uma enorme profusão de signos. Desde os mais domesticados pela publicidade até as intervenções artísticas em todas as suas vibrações, desdobramentos e escalas com obras de arte, monumentos, grafites e pichações entre outras. Com isso, imagem e cidade tramam múltiplas relações de aproximação, contaminação e recriação. Como as forças do capitalismo contemporâneo manejam sobremaneira a produção de imagens, assim como as experiências, as cidade e suas imagens tornam-se um importante foco de difusão de modos de vida padronizados e alinhados pelas experiências do consumo.

Tomando as obras de Adirley Queirós – “Rap, canto da ceilândia” (2005), “A cidade é uma só” (2011) e “Branco sai, preto fica” (2014) vamos mostrar a potência da imagem em movimento ao abandonar a montagem que pacifica e oculta as intensas disputas simbólicas e econômicas do espaço, para devolver vigor político e social às formas de representação friccionando ao máximo as tensões típicas dos espaços urbanos do Brasil. Para a análise das obras vamos recorrer ao repertório da Geografia, especialmente a tripartição proposta por Henri Lefebvre (espaço material, a representação do espaço e o espaço da representação) e posteriormente ampliada por David Harvey em torno do espaço absoluto, relativo e relacional.

Tudo isso acaba por reterritorializar as imagens da cidade em espaços duplamente heterotópicos (Foucault) já que os filmes de Queirós mostram as tramas e tensões históricas que envolvem a construção de Brasília e seu importante projeto utópico-tropical modernista e como isso, de alguma forma, representa as mesmas formas de segregação típicas de outras cidades brasileiras.
Bibliografia

COMOLLI, Jean-Louis. A cidade filmada. IN: COMOLLI, Jean-Louis. Ver e poder – a inocência perdida: o cinema, televisão, ficção, documentário. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.



HARVEY, David. Cidades rebeldes – do direito a cidade à revolução urbana. São Paulo: Martins Fontes, 2014.



HARVEY, David. O espaço como palavra chave. IN: Revista GEOgraphia, Vol. 14, No 28 (2012).



FOUCAULT, Michel. Outros Espaços (1967). IN: FOUCAULT, Michel. Estética: literatura e pintura, música e cinema. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006.



GORELIK, Adrián. Sobre a impossibilidade de (pensar) Brasília. IN: Revista Serrote. Nº 10. Rio de Janeiro: IMS, 2012.



GUATTARI, Félix. Caosmose – um novo paradigma estético. Rio de Janeiro, 34 letras, 1992



QUEIRÓS, Adirley. Entrevista. IN: Negativo – Cineclube Beijoca. – v. 1 n.1 (jul/set 2013) Brasília, Universidade de Brasília - Departamento de Filosofia (fil/ih), 2013.