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  Título
Literatura e cinema: uma metodologia de análise “infiel” da adaptação
Autor
ADRIANE ROBERTA RIBEIRO DE MACEDO
Resumo Expandido
Um dos aspectos fundamentais que surgem na mente dos espectadores de adaptações é o que concerne à fidelidade entre o filme e o romance. Os pesquisadores e a crítica em muitas ocasiões têm-se deixado levar unicamente pela comparação das impressões entre obra literária e a filmada. E como consequência disso, existe uma falta de metodologia para analisar as adaptações e avaliar o processo de transpor um texto criado em outro meio, levando em conta que o cinema é um meio distinto.

O crítico McFarlane (1996), sugere aspectos que empobrecem o processo de análise de uma adaptação: a fidelidade, a relevância dada à impressão pessoal sobre como deve ser o texto filmado e o sentido implícito da " supremacia " do romance. O filme deve ser o resultado da sua experiência de leitura correspondente com o que o romance criou em termos verbais. O diretor se apropria da ideia através da sua interpretação, está mais próximo do sentido de autoria, e é nele que se encontra a força do material adaptado, estando longe da convicção de " Supremacia" do romance ou das intenções do autor, que às vezes, não correspondem aos do cineasta.

Percebe-se que a terminologia que se usa em torno da adaptação é vaga e deriva-se da falta de critério dos pesquisadores que tendem a escolher (como se de escolher se tratasse) a obra literária, sem uma verdadeira análise do meio. As concepções que pressupõem que o filme é uma leitura simples e subordinada da obra literária, não é mais que o desconhecimento do processo de adaptação. Stam (2000), sobre este aspecto, expressa que utilizando o valor da “fidelidade” equivocadamente, traduzimos nosso sentimento de inconformidade por meio de termos como “infidelidade” e “traição”, quando o que realmente ocorre é que não sabemos interpretar nosso confronto com a fantasia e o ideal do outro, neste caso, do diretor da adaptação. Um filme se deve, principalmente, à sua natureza cinematográfica e, portanto, a sua transferência dos fatos, deve ser uma entidade autonoma na sua transformação nas mãos do cineasta. E isso envolve a noção de intertextualidade. Como solução, e substituição do termo "fidelidade " Robert Stam propõe tradução. Assim, dois conceitos básicos subjacentes surgem e não a utilização enganosa da fidelidade, mas a real e concreta processo de adaptação.

Stam propõe, portanto, a adaptação como um dialogismo intertextual : "o conceito de dialogismo intertextual sugere que cada texto faz uma intersecção de superfícies textuais " ( Stam, p.64 ) , além investigar o extraliterário para compor o trabalho no cinema , a fim de criar um dialogismo (usando a terminologia de Bakhtin ), que permite a execução de estratégias específicas para análise de adaptação. Além disso, de acordo com Stam , devemos desconstruir a hierarquia entre original e cópia, desta forma , a adaptação será sempre inferior . E usar o termo romance fonte ao invés de romance original.

Nessa direção, o trabalho do investigador, deve ser rigoroso afim de compreender que uma adaptação não satisfatória se deve à falta de entendimento sobre o trabalho narrativo e dos meios, das diferencias irredutíveis entre os dois ou por falta de êxito na hora de distinguir o que se deve ou não transferir e adaptar. E não no grau de fidelidade com o romance. Não se está afirmando que não se deve levar em conta os aspectos da obra literária. Precisa-se de uma metodologia complexa e delicada sobre a adaptação que não marginalize os outros determinantes que não têm nada a ver com o romance, mas que potencialmente são influentes no filme . Certamente esta metodologia é mais interessante do que contar as diferenças entre eles e ou explicar como os filmes " reduziram " a supremacia dos grandes romances.
Bibliografia

MARCFARLANE, Brian. Novel to film. A introduction to theory of adaptation. Oxford University Press. Oxford, 1996.



STAM, Robert. Beyond fidelity: the dialogis of adaptation. In: Naremore. The Athlon Press, Londres, 2000