Voltar para a lista
 
  Título
Heróis/anti-heróis: crítica estilística em Escobar, el patrón del mal
Autor
Simone Maria Rocha
Resumo Expandido
A partir de uma análise que tem como fio condutor a abordagem metodológica do estilo televisivo (BUTLER, 2010) e de modo a evidenciar os elementos estilísticos escolhidos na narrativa, o objetivo deste trabalho é, a partir de uma visada crítica, demonstrar e compreender como se deu a figuração de heróis e anti-herói na produção colombiana Pablo Escobar, el patrón del mal, produzida e exibida pela TV Caracol, 2012. Argumentamos que uma leitura crítica do estilo adquire relevância tendo em vista duas razões.

A primeira está relacionada à importância da televisão no contexto colombiano como explica o historiador e analista de meios Fabio López de la Roche (2014). Segundo ele um ponto central destas narrativas televisivas (ao menos no que diz respeito ao seu funcionamento dentro do contexto colombiano) é que, para as audiências massivas, ou seja, a maioria dos colombianos que não lêem jornais impressos diárias nem livros de história, nem pertencem ao mundo da cultura letrada, tais produtos constituem-se na única possibilidade de conhecimento da história recente do país. Essas construções narrativas ficcionais da história colombiana dos últimos 30 anos, nas quais a montagem televisiva superpõe materiais documentais com materiais ficcionais, devem merecer uma crítica sistemática. Tal fato nos aponta para a relevância das escolhas narrativas e estilísticas adotadas. Como a série explora a historia do narcotraficante Pablo Escobar Gaviria, que participou no assassinato de vários dirigentes políticos colombianos na década de 1980, houve uma preocupação, por parte dos realizadores em contar uma história que de algum modo evidenciasse a atuação firme e combativa desses dirigentes, que demonstrasse que, apesar de todo o horror espalhado pela Colômbia naqueles anos, houve quem lutasse contra esse império do mal, a ponto de dar suas vidas por uma causa comum como verdadeiros heróis.

A segunda razão diz respeito ao crescente número de produções televisuais envolvendo o tema do narcotráfico, seu desdobramento, inserção, influência e dano na estrutura econômica e social das sociedades nas quais está presente. Muitas dessas narrativas nos sugerem compreender que a mercantilização da violência é o resultado direto de um governo frágil e do avanço da “lógica de mercado”, numa situação segundo a qual a existência humana e os direitos humanos dependem da posição que se ocupa na hierarquia econômica relegando parte da população, como os camponeses e colonos expulsos de suas terras (desplazados), os pobres, os migrantes, os dependentes de droga, os trabalhadores braçais, as prostitutas etc, à condição de “descartáveis".

Neste cenário surge o que alguns autores denominaram narco-cultura (RINCÓN, 2013, 2009) como sendo uma forma de autorrepresentação assumida pelos narcos que inclui uma estética ostentatória, um consumismo notório e a busca por status social. A cultura das drogas, ou narco-cultura, espalhou sua simbologia e seus modos de ser pelas sociedades latino-americanas. Se as formas de ascensão social por meio da educação, do trabalho ou da participação política são excludentes e injustas, a narco-cultura aparece com uma importância significativa, pois ela pode representar a entrada do povo, mesmo que de maneira desviada, na modernidade.

Pablo Escobar, el patrón del mal, contempla vários desses aspectos e tem grande debate e controvérsia em torno de seus significados pretendidos. Para alguns, ela pode ser considerada uma narrativa espetacular e apologética ao crime e a uma imagem negativa da Colômbia. Sendo assim, o melhor seria esquecer ou ignorar o passado. Já outras posições defendem que o passado precisa ser conhecido, revisto e criticado, para que não se repita no presente.

Diante das várias possibilidades apresentadas, o extrato que escolhemos para esta análise corresponde às sequências dos discursos políticos de Galán, pré-candidato à presidência, e de Escobar, que se apresentou como suplente do candidato Ravier Ortiz.
Bibliografia

BUTLER, Jeremy. Television Style. New York: Routledge, 2010.

LÓPEZ DE LA ROCHE, Fabio. Las ficciones del poder: patriotismo, médios de comunicación y reorientación afectiva de los colombianos bajo Uribe Vélez (2002-2010). Bogotá: IEPRI: Debate, 2014.

RINCÓN, Omar. Todos temos um pouco do tráfico dentro de nós: um ensaio sobre o narcotráfico/cultura/novela como modo de entrada para a modernidade. MATRIZes. Ano 7 – No 2 jul./dez. 2013 - São Paulo – Brasil.

RINCÓN, Omar. Narco.estética y narco.cultura en Narco.lombia. Nueva Sociedad #222, Jul.-Ago, 2009. pp. 147-163.