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  Título
Convergências e dissonâncias: a educação brasileira na tela do cinema
Autor
Aristóteles de Paula Berino
Resumo Expandido
Filmes que abordam, de alguma maneira, questões referidas à educação escolar em suas tramas, desde o cotidiano, às vivências até o poder, fazem parte da história do cinema. Uma vista do cinema brasileiro surpreende pelo escasso interesse pelo tema. No entanto, mais recentemente, algumas produções para o cinema, entre obras de ficção e documentários, passaram a tratar da educação também, enfrentando tantas questões que fazem parte hoje dos seus desafios na sociedade brasileira. De outro lado, o interesse muitas vezes desconfiado, reticente, da educação pelo cinema parece ceder em favor de uma maior aproximação. Portanto, podemos dizer que há uma convergência atual entre o cinema e a educação, uma confluência que é pedagógica, cultural e política. O pretendido com a apresentação deste trabalho é discutir aspectos e elementos dessa convergência através das dissonâncias que esse cinema sobre a educação produz, analisando seus sentidos e suas contribuições para o debate sobre os rumos da escola, sobretudo aquela frequentada pelas classes populares no país. Para essa discussão, vamos selecionar três documentários como material analítico: 1) Pro Dia Nascer Feliz (2006), filme de João Jardim, 2) Carregadoras de Sonhos (2010), filme de Deivison Fiúza, 3) Últimas Conversas (2014), filme de Eduardo Coutinho. Três obras que propiciam, com suas atuações, histórias e narrativas, uma visão da educação brasileira a partir do cinema. Uma visão dissonante, é possível dizer, uma vez que ao conversar com educandos e educadores, esses filmes já interpelam práticas conservadoras da educação brasileira, caracterizada pelo silenciamento desses personagens escolares, como tantas vezes observou Paulo Freire. Dissonante ainda porque são abordagens mais questionadoras do que entusiasmadas e otimistas da educação brasileira. São filmes que presentificam crianças, jovens, professores e professoras, em realidades adversas e pouco prometedoras para a educação pública. Importante observar que, como obras autorais, são inquietações e pretensões personificadas que constroem cada filme, resultando em modos de ver estética e eticamente bem distintos. Constituem um olhar diverso e penetrante, tecendo uma imagem complexa e significativa dos problemas que cercam a vida nas escolas e as políticas educacionais. Assim, o cinema junta-se às “vozes da educação”, ou seja, participa como uma interlocução válida no debate educacional no país. Trata-se de um reconhecimento necessário pela possibilidade do cinema em contribuir de forma singular e enriquecedora para as análises e críticas necessárias à futuridade da escola como instituição relevante para o destino social das classes populares. Singularidade em razão da sua especificidade como expressão artística e intelectual. Não se trata de uma produção escrita, mas visual. Considerar o cinema nas discussões sobre o campo educacional é levar em conta as visualidades (e sonoridades) como superfície para a tessitura de saberes e conhecimentos. Portanto, a recepção do audiovisual exige outras considerações a repeito da forma de comunicação e diálogo com essa audiência. Os praticantes das conversas com o cinema precisam mover-se das suas experiências comuns à comunidade, sobretudo, escrita e oral, em que se situam na Ciência. A cultura visual também pensa a educação. Com o interesse do cinema pela “crítica social e educacional”, novas vozes se fazem ver e ouvir no campo educacional. Para os que trabalham com educação, é preciso abrir-se ao diálogo com esse “cinema da educação”, que diferente das antigas concepções de um cinema prescritivo que cooperasse com a “educação nacional”, mostra-se dissonante em relação ao poder.
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