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  Título
As duas ficções de Rick e os regimes da fábula cinematográfica
Autor
Nilson Assunção Alvarenga
Resumo Expandido
Em Ricky, como em outros filmes de Ozon, encontramos uma história dentro de outra: a de um personagem (Lisa) que ficionaliza sua própria vida e a dos outros personagens (a mãe e o namorado e o irmãozinho, que haverá de se chamar Ricky); e a outra, a história que o narrador está contando. O narrador narra, então, o próprio processo de ficcionalização, isto é, a construção de uma ficção por um personagem. O tema do filme, então, num nível superficial, é, para o espectador, a história que Lisa constrói sobre si e sobre sua família, sob o impacto da iminente chegada de um irmãozinho; mas, num outro nível, o tema é a própria ficcionalização, e o espectador percebe-se cúmplice daquela primeira fabulação. Interessa, primeiro, pensar qual a natureza das duas histórias e, segundo, qual o efeito, para o espectador, dessa experiência da ficção como tema.

De um ponto de vista formal, a história criada por Lisa segue o modelo de uma narrativa clássica (no sentido da conceituação de Bordwell), ora repleta de peripécias, como num gênero de aventura, ora marcada pelo suspense, como num thriller, com uma unidade de ação relacionada ao destino do menino que, ainda na barriga da mãe (o que descobrimos no final), ganha asas na imaginação da menina e na diegese imediata do filme. Mas e a outra ficção, aquela que corre subterraneamente até a descobrirmos no final e que é a fábula que o narrador efetivamente está contando – a história dos três, da mãe, com emprego precário, sozinha, sem saber se vai poder ter a criança; do rompimento do namoro, da volta de Paco, da menina aprendendo a se relacionar com ele etc? Essa “história subterrânea”, que é a “verdadeira” história do filme, adere, por seu lado, a um modelo realista (cuja conceituação remonta a Bazin e Deleuze), marcada não mais pela unidade de ação e sim pela unidade dos personagens ou, se quisermos, uma unidade dos afetos (Deleuze).

Ora, diante dessa experiência de dois modelos narrativos num mesmo filme, é possível pensar na coexistência de dois regimes do cinema, tal como pensados por Jacques Rancière – o regime da poética clássica – representacional – e o regime de poética “modernista” – própria ao regime estético da arte. Se é assim, poderíamos indagar, então, se, do ponto de vista da experiência do estética do filme, a mistura de modelos ficcionais em Ricky não apontaria para um regime misto, de trânsito, criando uma oscilação que confunde o espectador. Mas, ao mesmo tempo que confunde, por isso mesmo o coloca no terreno de uma narrativa vetorizada pela potência (para além da narrativa atual), acionando seu desejo de fabulação para além dos modelos narrativos “estáveis” em seu sentido fixo. É nesse sentido que o tema central do filme pode ser pensado como a própria fabulação; e, pensando no espectador, em sua oscilação entre modelos narrativos, identificando-se ora com a personagem ora com o narrador, percebe o que é “fabular”, independente do modelo puro a que Ricky está aderido.
Bibliografia

AGAMBEN, Giorgio. A potência do pensamento. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.

BAZIN, A. O que é cinema. São Paulo: Cosac Naif, 2014.

BORDWELL, David. Narración en el Cine de Ficcion. Paidós: Madrid, Barcelona, 1996.

DELEUZE, G. Cinema 2. A Imagem-tempo. São Paulo: Brasiliense, 1990.

DELEUZE, G. e GUATTARI, F. O que e' a filosofia? Rio de. Janeiro: Ed. 34, 1991.

RANCIERE, Jacques. A Partilha do Sensível. São Paulo: Exo Experimental org. 2009.

____ . A fabula cinematográfica. Campinas: Papirus, 2005.

____ . O Efeito de realidade e a política da ficção. Novos Estudos CEBRAP 86, março 2010. pp. 75-90.