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  Título
A voz do pagão: Ramon Novarro, masculinidade e cinema sonoro
Autor
Natasha Hernandez Almeida Zapata
Resumo Expandido
Na manhã do halloween de 1968, os meios de comunicação americanos anunciavam a morte de Ramon Novarro. O ator mexicano, que já havia sido uma grande estrela de Hollywood, foi encontrado morto em sua casa em Hollywood Hills. Mais tarde, foi descoberto que Novarro havia morrido sufocado pelo próprio sangue, após ter sido severamente espancado. Seus assassinos foram dois irmãos que haviam ido à casa de Ramon como garotos de programa, e o haveriam torturado para que ele os desse dinheiro.

Na época, a divulgação da homossexualidade do ator surpreendeu a muitos fãs e, até mesmo, a algumas pessoas próximas de quem ele mantinha sua orientação sexual em segredo. O sensacionalismo da mídia sobre o assunto trouxe um certo desconforto, já que questionava a imagem de heterossexual e a masculinidade de Novarro, construídas pelo star system hollywoodiano da década de 1920, com o intuito de atrair as plateias femininas para seus filmes.

Esse star system foi responsável pela consolidação de diversas estrelas dos grandes estúdios norte-americanos. As imagens e condutas das atrizes e dos atores eram rigidamente controladas, e tudo que saísse dos padrões estabelecidos era considerado escandaloso ou imoral. Dentro desse contexto foi que surgiu o estereótipo do latin lover. Carregado de sensualidade, exotismo, boa aparência, pele ligeiramente morena, e movimentos de dançarino, e detentor de uma sexualidade aflorada, podemos concluir que o latin lover funcionava como uma categoria integrante da masculinidade, já que esta seria composta por um conjunto de questões morais, de certos padrões normativos de aparência, comportamento e conduta.

Como um dos maiores representantes desse estereótipo, além de Rudolph Valentino, surgiu Ramon Novarro, cuja morte trouxe uma necessidade de se repensarem os padrões que costumavam ser impostos aos atores de Hollywood, durante seu período de estrelato. Podemos dizer que o ator mexicano materializa nossa tentativa de criar essa teia de relações entre star system, masculinidade, transição para o sonoro e repercussões no Brasil. Assim, sua trajetória perpassa quase que de maneira espontânea todos os diferentes pontos que procuramos abarcar.

O início de sua carreira no cinema silencioso, com seu rosto, e corpo, estampando diversas capas de revistas, principalmente no Brasil, e conquistando uma grande quantidade de fãs, demandou a sustentação de um tipo que ele levaria, inclusive, ao filmes sonoros. Nessa fase em que ocorria uma transição tecnológica no cinema hollywoodiano, acontecia também uma mudança nos limites morais dos filmes produzidos e na vida publicizada das estrelas. Novarro passou pelo período de extrema moralidade do Código Hays, e incorporou as novas demandas de Hollywood a suas atrizes e atores, utilizando sua voz em canções que imortalizaria em seus filmes sonoros.

No Brasil, a importância de Ramon Novarro se avulta, não só por haverem sido exibidos aqui os filmes falados dos quais participou, mas por ter sido a sua voz a primeira a ter sido ouvida, com o início das sessões sonoras, em salas de cinema de diversas cidades. Como novo elemento do exercício de sua sexualidade nas telas, a voz pagã de Ramon, apesar de sua profunda formação católica, carrega consigo os traços de um antigo star system, e as mudanças trazidas pelo som e pela severidade moral da década de 1930, sendo, ainda, capaz de nos provocar questionamentos acerca de temas como a masculinidade e a sexualidade nos dias atuais.
Bibliografia

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