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  Título
Eventos de Afeto: a expressão pós-colonial em Paradise: Love
Autor
Thalita Cruz Bastos
Resumo Expandido
Na produção audiovisual contemporânea observamos o surgimento de novas formas de engajar afetivamente o espectador através da estética realista. Os modos de produzir afeto dentro de uma obra audiovisual são múltiplos e estão relacionados tanto com as características da produção de um cineasta, mas também como as escolhas estéticas que são feitas e que direcionam o interesse do espectador pela obra para os aspectos sensoriais e afetivos que são estimulados no decorrer da obra audiovisual.



O cinema europeu contemporâneo apresenta alguns diretores cujas decisões estéticas, temáticas e narrativas se aproximam do que chamamos de cinema pós-colonial na medida que produzem através de seus filmes não apenas um questionamento do lugar de fala do europeu e suas visões estereotipadas de mundo, como também o faz através do agenciamento da relação entre os corpos e a produção de afetos a partir dos encontros entre eles. As intensidades existentes numa narrativa onde predominam as questões do momento pós-colonial em que vivemos é dada a ver e a sentir através da instauração de eventos afetivos.



O diretor austríaco Ulrich Seidl é destacado pois para além de seu interesse por abordar relações migratórias na contemporaneidade, seu método de filmagem bastante característico permite a tanto a expressão do corpo pós-colonial que ele escolhe apresentar, quanto a produção de afetos através da instauração de eventos afetivos expressivos no interior da narrativa. Além disso, Seidl propõe uma visão irônica e crítica perante a forma de olhar do europeu, propondo através do agenciamento dos corpos e cena uma outra forma de se ter a experiência do outro. É nesse sentido que a análise do primeiro filme da Paradise Trilogy, Paradise:Love, se justifica. Trata-se de um filme em que os conflitos do momento pós-colonial são visíveis e sensíveis através da relação entre os corpos dos atores e personagens.



Para nos ajudar nessa análise será desenvolvido o diálogo com autores como Elena Del Río, para trabalhar o conceito de eventos afetivos-expressivos, Brian Massumi e sua compreensão de afeto como intensidade. Em contrapartida a autora Eugenie Brinkema e sua proposta de entender o afeto como forma e não apenas como intensidade, a fim de problematizar análises divergentes sobre o papel do afeto, mas se que aplicam à obra cinematográfica analisada. Além disso, as reflexões sobre corpo realizadas por Jean-Jacques Courtine, juntamente com a concepção de corpo pós-colonial advinda dos Estudos Culturais. Nossa proposta é reconfigurar o conceito de corpo pós-colonial, não limitando-o apenas a representação de gêneros e etnias, mas como aquele que permite expressar os conflitos do momento pós-colonial marcados na pele e que reverberam no encontro com outros corpos.



O desafio desse texto é reunir pontos de vista paradoxais, quais sejam, o entendimento da potencialidade de afetação e expressão dos corpos através de eventos afetivos para além de sua representação num contexto de produção – o universo dos Estudos Culturais e os Estudos Pós-Coloniais – no qual as políticas de representação possuem um papel fundamental. Enfrentar esse paradoxo se justifica pelas demandas dos filmes da Paradise Trilogy, e nesse caso especificamente o primeiro filme, Paradise: Love. O filme apresenta em si o encontro desse paradoxo teórico, expressão e representação juntos, cada um cumprindo seu papel em engajar afetivamente o espectador.
Bibliografia

ASHCROFT, Bill. GRIFFITHS, Gareth, TIFFIN, Helen. Post-colonial Studies. The key concepts. London and New York: Routledge Taylor and Francis Group, 2007.

BRINKEMA, Eugenie. The Forms of Affects. Duhman and London: Duke University Press, 2014.

COURTINE, Jean-Jacques. O corpo anormal. História e antropologia culturais da deformidade. In: _____. CORBIN, Alain. VIGARELLO, Georges. Histórias do corpo: As mutações do olhar: O século XX. Volume 3. Petrópolis: Editora Vozes, 2011. p. 253-340.

DEL RÍO, Elena.The Body as Foundation of the Screen: Allegories of Technology in Atom Egoyan’s Speaking Parts. In: Camera Obscura, n. 38, 1996. p. 93–115.

_____. Deleuze and the cinemas of performance. Powers of affection. Edinburg: Edinburg University Press, 2008.

MASSUMI, Brian. Parables for the virtual. Movement, Affect, Sensation. Durham and London: Duke University Press, 2002.