Voltar para a lista
 
  Título
Cinemas entre o vivo e a morte
Autor
Saulo de Araujo Lemos
Resumo Expandido
Dentre os muitos experimentos de cinema autoral em de mais de 100 anos, pode-se destacar o uso de imagens estáticas ou semiestáticas na composição de cenas de certos filmes, como se observa em autores díspares como Stanley Kubrick e Pedro Costa. Esse tipo de construção de imagem, imóvel ou de movimento quase imperceptível, pode ser lido como uma interferência contra o ritmo narrativo habitual do cinema no ocidente, sobretudo quanto ao setor mais comercial e apegado a métodos consagrados para a obtenção do maior público possível; uma ideia de cinema muito difundida, assim, é a de que o associa a um passo narrativo frenético, rocambolesco, como se esse fosse seu feitio natural. Entretanto, esse costume chama a atenção do espectador aos apelos miméticos do filme, mas invisibiliza a expressividade material em tela. Quando o diretor cria andamentos de cena em velocidades distintas das referidas, ele sensibiliza o público para seus recursos expressivos, o que costuma causar incômodo, ao espectador mais anestesiado, bem como surpresa e curiosidade, àquele que se interessa por afastamentos das perspectivas audiovisuais correntes. A imagem fixa, como se fosse o resultado de um problema técnico ou de um comando inesperado de câmera lentíssima, é uma maneira de retomar as demandas da pintura ou da fotografia tradicionais e pressionar quem vê para que veja com mais demora, mais atenção ou mais inquietação. No cult movie de ficção científica 2001, uma odisseia no espaço (1968), de Kubrick, e no documentário-ficção Cavalo dinheiro (2014), de Costa, o emprego das imagens lentas ou imóveis se associa a várias questões que podem relacionar as duas, apesar de parecerem muito distintas. No primeiro filme, as cenas pré-históricas ao ar livre e de viagens intergaláticas sugerem o pulsar de cotidianos longamente inalterados; no outro, a posição quase fixa dos atores comunica o situar do impasse, da impossibilidade de um gesto novo. Além do tipo de plano quase fotográfico e demorado em tela que aproxima ambas as produções, há nelas um campo de realidade extraviado, distinto daquilo que têm de comum as épocas em que foram feitas: voltam-se para um passado ou um futuro distantes, e a indefinição de tempos tange a indefinição entre vida e morte. Esse detalhe favorece a intervenção de leitura, para os dois filmes, pelo ensaio do francês Maurice Blanchot, intitulado “A literatura e o direito à morte”. Mesmo focado na arte literária, encontram-se nele proposições bastante oportunas para pensar a obra artística, dado o caráter aberto do texto: a arte defronta o humano com a fragilidade daquela e a finitude deste, ecoando um questionamento de si e do mundo que sobrevive às respostas e à transitoriedade da matéria. Nas duas realizações cinematográficas apontadas, há algo que vive como o que sobrevive à morte do corpo ou do sonho, mas que não é fantasma, falta, dívida com o passado (como apontado por Deleuze e Guattari na psicanálise), mas é reverberação de intensidade vibratória do corpo no caos/cosmos de imagens que tanto são o rastro da visão como o duplo não idêntico da percepção e da experiência. Este trabalho pretende, assim, confrontar os dois filmes escolhidos, partindo do gatilho da imagem (quase) imóvel que os caracteriza (principalmente na produção portuguesa), mediante o pensamento de Blanchot, interferido por algumas sugestões de Deleuze, Guattari e outros pensadores; a conclusão provisória disso é que a passagem de uma imagem semi-imóvel à outra, mesmo que não se verifique na totalidade da obra, registra um ritmo próprio de movimento de corpo e pensamento, pautando a vida, em seus espaços de ficção e realidade (essas duas modalidades da ficção), como a questão/dilema mais importante: inquietação engatilhada pelo limiar potencial que atrai as diversas artes e as contamina mutuamente, abolindo as facilidades da representação convencional e intensificando as complexidades da percepção e do imperceptível.
Bibliografia

2001: uma odisseia no espaço. Dir.: Stanley Kubrick. [s.l.]: Metro-Goldwin-Mayer, 1968. DVD.

BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. In: ______. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Trad. Sérgio Paulo Rouanet. 7. ed. São Paulo: Brasiliense, 1994 (obras escolhidas, vol. I).

BLANCHOT, Maurice. La littérature et le droit à la mort. In: La part du feu. Paris: Gallimard, 2013.

CAVALO dinheiro. Dir. Pedro Costa. [s.l.]: OPTEC, 2014. Filme exibido em cinema.

DIDI-HUBERMAN, Georges. Ce que nous voyons, ce que nous regarde. Paris: Minuit, 2014.

DELEUZE, Gilles. Cinéma 1: L’image-mouvement. Paris: Minuit: 2012.

________. Cinéma 2: L’image-temps. Paris: Minuit: 2012.

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mille plateaux. Paris: Minuit, 2013.

SALVETTI, Alfredo Roque. A história da luz. Campo Grande: UFMS, 2006.

STAM, Robert. Introdução à teoria do cinema. Trad.: Fernando Mascarello. 5. ed. Campinas: Papirus, 2013.