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  Título
Batman, terrorismo e tortura: ressonâncias da Guerra ao Terror
Autor
Nicholas Andueza Sineiro
Resumo Expandido
A trilogia cinematográfica de Batman (2005, 2008 e 2012), dirigida por Christopher Nolan, traz uma série de questões referentes às disputas pelo espaço urbano no contexto posterior aos atentados terroristas do 11 de setembro. Mas a relação dos filmes com o tema do terrorismo vem não somente por meio da representação (herói como força antiterror da ordem versus vilões como terroristas que promovem o caos): vem também pela forma como essa representação é feita. A trilogia guarda ressonâncias visuais com a iconologia da Guerra ao Terror, e são exatamente esses ecos imagéticos que se pretende aqui investigar. São pontos de convergência que exprimem uma latência muda, denotam uma maior complexidade nesses três filmes e os afazem guardar imagens que “incendeiam” em seu contato com o real (DIDI-HUBERMAN, 2012). A hipótese é a de que tais conexões com ícones da Guerra ao Terror aprofundam a intimidade da trilogia de Nolan com esse contexto e servem não somente para potencializar o realismo almejado nela, como também para, por meio desse realismo, naturalizar e legitimar determinados dispositivos de poder. A produção e proliferação de figuras sem rostos, encapuzadas, mascaradas, anônimas, duplas, especulares, múltiplas é combinada com cenas que banalizam a execução da tortura. O Estado de Exceção, paradoxalmente, é proposto por Batman como solução para a manutenção do Estado de Direito (AGAMBEN, 1998). A disputa pelo espaço se torna indiscernível da disputa pela imagem.



Ao centro do debate está a relação de uma sequência específica do primeiro filme da trilogia, 'Batman begins', com uma fotografia tirada por agentes antiterroristas americanos na prisão de Abu Ghraib, no Iraque. A cena do longa, lançado em 2005, traz o momento de inauguração do Batsinal (dispositivo que projeta o símbolo de Batman nos céus de Gotham); a foto da prisão veio a público em 2004 e ficou conhecida como “O Homem de Capuz”. Nela, vê-se um prisioneiro encapuzado, vestido com uma túnica preta e em pé sobre uma caixa; a postura daquele corpo, como uma espécie de Homem das Dores, remete a toda uma tradição iconológica da figura de Cristo (MITCHELL, 2011), o que torna a cena particularmente potente ao imaginário ocidental. No caso do longa, um mafioso vestido com trapos pretos é crucificado por Batman em um holofote e acaba por projetar o símbolo do herói nas nuvens, reiterando o tema da figura crística e trazendo ecos da imagem de Abu Ghraib (a postura dos corpos, as vestes etc.). A partir dessa convergência entre a foto e a cena, ressonância eloquente sobre o projeto batmaniano de poder, outras ligações são traçadas para evidenciar uma certa sistematicidade na proliferação de imagens – um efeito tão próprio do contexto iconológico da Guerra ao Terror (Idem).



A retratação, por exemplo, do cão como besta feroz em 'The dark knight', segundo filme da trilogia, faz ressoar outras fotos de Abu Ghraib, em que os agentes antiterroristas justamente aterrorizam prisioneiros com cachorros violentos. Além disso, o uso do capuz preto em reféns é naturalizado em 'The dark knight rises' – terceiro filme. E é possível citar, ainda, o “Obama-como-coringa”, motivo visual amplamente replicado por fãs na internet que formula uma crítica extradiegética a Obama a partir da associação de sua figura com a do Coringa. A proliferação desses ícones vem como praga e infesta tessitura imagética da trilogia. Concomitantemente a essa explosão de visibilidades, ao contrário do “indizível” e do “inimaginável” associados às cenas de tortura (Idem), na trilogia de Batman, a tortura promovida pelo herói e pelas forças policiais (ao contrário daquela promovida pelos vilões) opera no campo do absolutamente visível. A total visibilidade parece desativar o absurdo da tortura e torná-la uma praxe “necessária”. Assim, a coerção violenta dos corpos se conecta a uma coerção da imagem e do olhar, por meio da qual a autoridade monopólica de Batman se blinda e se preserva – se legitima.
Bibliografia

AGAMBEN, Giorgio. Homo Sacer: sovereign power and bare life. Stanford, Calif: Stanford University Press, 1998.



___________________. O que é o dispositivo? e outro ensaios. Chapecó, SC: Argos, 2009.



DIDI-HUBERMAN, Georges. Quando as imagens tocam o real. Pós: Belo Horizonte, v. 2, n. 4, p. 204-219, nov. 2012.



___________________________. A sobrevivência dos vagalumes. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011.



FOUCAULT, Michel. História da loucura. São Paulo: Perspectiva, 2012.



MITCHELL, W. J. T.. Clonning terror: the war of images, 9/11 to the present. Chicago: The University of Chicago, 2011.