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  Título
Imagem e transgressão: o monstro como limite em Freaks
Autor
João Victor de Sousa Cavalcante
Resumo Expandido
O convívio das culturas com a monstruosidade é marcado por uma ambígua relação de repulsa e fascínio: o monstro sobrevive justamente nessas brechas, no limiar entre medo e desejo. Colocar em cena o corpo monstruoso é conduzir o espectador para essas fissuras entre o que está oculto e o que salta ao olhar. Ao trazer para a tela corpos aberrantes, ou não normativos (tais como gêmeas siamesas, um homem sem braços e pernas, cujo corpo se resume ao torso, uma mulher barbada etc.), Freaks (Tod Browning, 1932) aciona elementos que perturbam a ordem das fronteiras distintivas, nos levando para uma zona limítrofe, na qual os corpos revelam intensa mobilidade sígnica.

O filme nos mostra os bastidores de um circo itinerante em que as “aberrações”, ou “monstros”, como são chamados, convivem com pessoas sem deformidades aparentes. Tomando como ponto de partida o mobiliário singular do longa metragem, discutimos o corpo monstruoso como um elemento de intersecção sígnica, que desestabiliza a representação e põe em xeque noções pretensamente harmônicas de identidade. Nossa hipótese é que, na relação com o monstruoso, a subjetividade não se assenta no caráter estável e agregador da identidade, mas sim na relação transgressora e fragmentária da alteridade, em que o “outro” é sempre fabricado, configurando-se não apenas como limite, mas também como condição para o “eu”. Defendemos que tal relação se dá na ambiência da imagem, pois o contato com um corpo não normativo rompe com um princípio mimético/especular da identidade, evocando subjetividades limítrofes. Para Aristóteles, o monstro (teratos) é definido como aquele que não se parece com os pais, aquele a quem a natureza afastou de um tipo genérico (DAVIES, 2013). A imagem do monstro é, portanto, um gesto de transgressão que rompe com a tipificação das imagens do corpo ideal.

Para Jean-Louis Comolli (2008), o cinema herda da magia a tarefa de conjurar e domesticar o desconhecido. Ao filmar corpos monstruosos, o filme de Tod Browning traz à superfície elementos ocultos, da ordem do estranho, do abjeto. Esses elementos entram em conflito com a ordenação binária estabelecida pela cultura e desagregam antinomias elementares tais como cultura e natureza, normal e patológico, homem e monstro. O que percebemos em Freaks é que o significado da monstruosidade desprega-se de seus significantes, acionando conflitos intersubjetivos e políticos dentro do pequeno universo do circo (universo itinerante, movediço, em que tanto o espaço quanto seus moradores são transitantes desenraizados). Tais conflitos nos revelam, também, outros aspectos assumidos pela monstruosidade, que reside não apenas nos corpos, ou nas divergências da linguagem, mas também operam como elementos morais, políticos e éticos.

Michel Foucault (2013) define o monstro a partir da ideia de infração da ordem jurídico-biológica levada ao seu ponto máximo. Em sua forma e existência, ele viola as leis da sociedade e da natureza, uma vez que não há parâmetro legal nem esquema médico que sejam capazes de punir ou curar a monstruosidade. Esta desordem, como argumenta Bataille (2014), no entanto, é necessária e prevista dentro da dinâmica interna dos sistemas culturais. A transgressão que a monstruosidade implica, sugere fissuras, desarticulações e crises na cultura, que evidenciam o caráter limítrofe do sujeito.

Partindo dessa perspectiva, e a partir da análise de sequências específicas do filme, buscamos entender as complexas relações entre monstro, imagem e alteridade. No trabalho, relacionamos tais questões com produções cinematográficas contemporâneas, nas quais essas discussões estão presentes, mas que já se anunciavam com muita potência no filme de 1932. Tomamos como âncora conceitual, além dos autores citados acima, o pensamento do filósofo espanhol Eugenio Trías, cuja discussão sobre o limite nos é fundamental, além de autores que se dedicam a pensar o tema da monstruosidade como José Gil, Jeffrey Cohen e Noël Carrol.
Bibliografia

BATAILLE, Georges. O Erotismo. Belo Horizonte: Editora autêntica, 2014.

_________________ . A Parte Maldita. Belo Horizonte: Editora autêntica, 2014.

CARROL, Noël. A filosofia do horror ou Paradoxos do Coração. Campinas: Papirus, 1999.

COHEN, Jeffrey Jerome (org). Monster Theory. University of Minnesota Press: Minneapolis, 1996.

COMOLLI, Jean-Louis. Ver e Poder. Belo Horizonte: UFMG, 2008.

DAVIES, Surekha. The Unlucky, the Bad and the Ugly: Categories of Monstrosity from the Renaissance to the Enlightenment. In: MITTMAN, Asa Simon & DENDLE, Peter (editors). The Ashgate Research Companion to Monsters and Monstrous. Burlington: Ashgate Publishing, 2012.

FOUCAULT, Michel. Os Anormais. São Paulo: Martins Fontes 2013.

GIL, José. Monstros. Lisboa: Relógio d’Água Editora, 2006.

_______ . Metamorfoses do Corpo. Lisboa: Relógio d’Água Editora, 1997.

TRÍAS, Eugenio. Los límites del mundo. Barcelona: Destino, 2000.

______________. Lo Bello e lo Siniestro. Barcelona: Debolsillo, 2006.