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  Título
A poética intermidiática do roteiro seriado
Autor
Marcel Vieira Barreto Silva
Resumo Expandido
Os estudos em torno das séries televisivas foram, historicamente, dominados por dois tipos de análise: o primeiro, de fundo sobretudo sociológico, pesquisa as questões temáticas que os programas encenam, como os aspectos político-ideológicos e os modos de representação das identidades de gênero, raça, classe social, etc. O segundo tipo, chamado aqui de econômico, almeja compreender os contextos de produção e consumo televisual, suas mais variadas plataformas de exibição (TV aberta, fechada, VOD, etc.), bem como as diferentes modalidades de relação dos canais com o público e, paralelamente, do público com os canais. Esses dois tipos de análise, devemos destacar, não são exclusivos, e muitas vezes apresentam diferentes níveis de correlação. Sua importância para a construção de um campo específico é, portanto, inegável.

Nos últimos anos, entretanto, a investigação em torno de uma poética das séries de televisão ganhou força, a partir de estudos mais detidos sobre aspectos estilísticos (BUTLER, 2010; PEACOCK, JACOBS, 2013) e narrativos (MITTELL, 2015; SILVA, 2015). Em termos metodológicos, esses trabalhos recorrem a um ferramental já comum aos estudos de cinema, a partir de uma influência decisiva do neoformalismo analítico (sobretudo David Bordwell e Kristin Thompson) e da narratologia francesa. Com base nisso, são produzidas investigações específicas de programas, temporadas, episódicos, blocos e arcos narrativos dos personagens, lidando quase exclusivamente com a análise detida dos elementos narrativos e audiovisuais utilizados na composição das séries.

A fim de ampliar o escopo das análises estilístico-narrativas que tem se destacado nos últimos anos, este trabalho busca discutir os métodos de análise dos roteiros de séries contemporâneas, a partir de um caminho metodológico específico, a meio caminho entre a análise textual e estudo comparativo, sempre levando em consideração que o roteiro, como peça dramática-verbal, compõe a sua linguagem a partir de sua natureza expressiva essencialmente intermidiática (RAJEWSKY, 2005).

Sabemos que se trata de um campo ainda novo, esse da análise expressiva do roteiro. No caso das séries televisivas, um dos argumentos utilizados para justificar a sofisticação das formas narrativas foi precisamente a emergência de uma instância autoral decisória dentro da estrutural industrial da TV: o escritor-produtor. No entanto, ainda que a sua importância seja inescapável, o trabalho particular de criação dos roteiristas - o roteiro propriamente dito - raramente merece atenção acadêmica.

Um campo de estudos específico do roteiro, além de recente, concentra-se no roteiro de cinema, investigando a sua poética (MACDONALD, 2013) ou a sua história (MARAS, 2009; PRICE, 2010). No caso da roteirização seriada, temos uma profusão de livros de matriz pragmática, manuais que ensinam os modelos e esquemas utilizados na indústria. No entanto, conforme é o argumento que defenderemos aqui, estudar a natureza singular do roteiro seriado pode contribuir sobremaneira para o entendimento das transformações estéticas empreendidas nos últimos anos na produção televisiva seriada. Apontar as suas especificidades e, portanto, as suas categorias de análise, é o objetivo deste trabalho.
Bibliografia

BUTLER, J. Television Style. New York: Routledge, 2009.

MACDONALD, I. Screenwriting Poetics and the Screen Idea. London: Palgrave, 2013.

MARAS, S. Screenwriting: History, Theory and Practice. London: Wallflower Press, 2009.

MITTELL, Jason. Complex TV: The Poetics of Contemporary Television Storytelling. New York: NYU Press, 2015.

PEACOCK S., JACOBS, J. Television Aesthetics and Style. London: Bloomsbury Academic, 2013.

PRICE, S. Screenplay: Authorship, Theory and Criticism. London: Palgrave MacMillan, 2010.

RAJWESKY, I. Intermediality, Intertextuality, and Remediation: A Literary Perspective on Intermediality. Intermedialiés. n. 06, 2005. p. 43-64

SILVA, M.V.B. Origem do drama seriado contemporâneo. Matrizes (USP), v. 09, n. 01, 2015. p. 127-143.