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  Título
Cartografias da memória: Chris Marker e W.G. Sebald
Autor
Álvaro Renan José de Brito Alves
Resumo Expandido
No encarte da edição original em inglês de Immemory (1997), uma compilação de imagens reunidas num CD-ROM e comentadas em texto, o bricolleur Chris Marker traz uma noção bastante peculiar de memória. Com frequência, diz o artista, pensamos a memória como um livro de história que conta as vitórias e derrotas de nossas batalhas, a descoberta de impérios e seus descalabros, no qual somos “personagens de uma novela épica” . Para ele, existiria uma forma mais “modesta e talvez mais frutífera” de pensar a memória: a partir de seus fragmentos, tomando-os como termos da geografia. Diz o encarte: “Em cada vida, encontraríamos continentes, ilhas, desertos, pântanos, territórios superpovoados e terrae ignitae”. A aventura ensejada a cada um que empreendesse um tal resgate dos fragmentos de memória que flutuam no oceano do esquecimento assemelhar-se-ia a uma busca enredada por descaminhos, desencontros e extravios, cujo traçado sinuoso resultaria num verdadeiro mapa do tesouro.

A presente pesquisa retoma tal concepção – a ideia de uma cartografia da memória – para pensar as possibilidades conceituais que dela emergem nas obras aqui estudadas. Como Marker traça, por exemplo, uma memória histórica, política e afetiva em Sans soleil (1983), ou seja, de que forma a utilização de registros heterogêneos, de lugares, países e paisagens diferentes, justapostos um ao outro, serve para compor um certo discurso histórico, forjar possíveis associações, encontrar conexões invisíveis e, ao fim e ao cabo, definir possíveis mapas de uma memória? Façamos pergunta semelhante à obra de W.G. Sebald, Austerlitz (2001), na qual o protagonista homônimo deambula de cidade a outra numa busca atordoante por um passado que não cessa de escapar. Admitimos aqui, portanto, o espaço como um lugar de memória bem como a memória como um espaço composto de acidentes geográficos, faixas de terra e oceanos desconhecidos – mas além de tudo, um espaço que se constitui a partir da fabulação, do ato de narrar, de refletir e colecionar experiências.

Trazemos também a noção de ficção da memória, proposto por Jacques Rancière, para intuir o esforço memoralístico que as obras aqui investigadas tentam erguer sobre a dupla condição imanente a que se submetem aqueles que morreram anônimos, a saber, a do esquecimento e a dos discursos historiográficos que sobre eles e na falta de suas vozes, de suas palavras, forja uma história estranha e infiel. Os dispositivos lançados por cada um dos autores aqui investigados lançam mão de estratégias diversas, ora são diários pessoais, íntimos, de uma adaptação em terra estrangeira, ora são relatos de viagem, resgate de histórias de povos africanos, japoneses, com breves intuições do sentido da História, ora é um romance que conta a história de um judeu, refugiado de sua cidade natal ainda criança, por motivos de dominação nazista. Todas essas obras, com suas peculiaridades, tentam erguer um monumento de uma memória na iminência do desaparecimento.
Bibliografia

BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito de história em Magia e Técnica, Arte e Política. Traduzido do alemão por Sergio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 2011.

DE CERTEAU, Michel. História e Psicanálise: Entre Ciência e Ficção. Tradução de Guilherme João de Freitas Teixeira. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2011.

DIDI-HUBERMAN, Georges. A imagem sobrevivente: história da arte e tempo dos fantasmas segundo Aby Warburg. Traduzido do francês por Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Contraponto Editora, 2013.

GAGNEBIN, Jeanne Marie. Lembrar escrever esquecer. São Paulo: Editora 34, 2009.

GERVAISEAU, Henri Arraes. O Abrigo do Tempo: Abordagens cinematográficas da passagem do tempo. São Paulo: Alameda, 2012.

RANCIÈRE, Jacques. A ficção da memória in Arte & Ensaios Revista do PPGAV/EBA/UFRJ n.21 Dezembro 2010, Rio de Janeiro.

SEBALD, W.G. Austerlitz. Tradução de José Marcos Macedo. São Paulo: Cia das Letras, 2008.