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  Título
Decisão-tomada: um conceito para pensar a prática do documentarista
Autor
Jair Giacomini
Resumo Expandido
O conceito de decisão-tomada surge no contexto de produção de minha tese de doutorado, cuja metodologia incluiu a realização de um documentário, produzido e dirigido por mim. Para chegar ao conceito, articulei, primeiramente, no âmbito teórico, propostas de Fernão Pessoa Ramos e de David Bordwell. Ramos defende que o momento da tomada é o ponto crucial sobre o qual melhor frutifica a reflexão a respeito do filme documentário: são as imagens e os sons que derivam do encontro entre sujeito-da-câmera e sujeito filmado que formam o cerne ético/estético do documentário. Bordwell, por sua vez, entende que o ofício do diretor pode ser compreendido a partir de uma sucessão de decisões – de ordem prática e de ordem artística –, decisões que ele, diretor, não pode deixar de tomar. O paradigma problema/solução, de Bordwell, constitui uma categoria de análise teórica que permite avaliar o estilo de um filme não apenas pelo que se vê na tela, mas por uma conexão entre essa dimensão (o que o filme apresenta para os olhos e ouvidos do espectador) e o pano de fundo da prática rotineira da realização cinematográfica.



Às propostas desses dois autores, encadeei as reflexões que surgiram no âmbito da prática da realização de "Bateia" e da experiência que vivenciei enquanto diretor desse documentário. A equipe de filmagem acompanhou, durante duas semanas de janeiro de 2014, os ensaios da Companhia de Teatro Íntimo, grupo teatral da cidade do Rio de Janeiro. Os procedimentos de realização documentária e o processo de reflexão/escrita da tese foram embasados em uma metodologia aberta, que chamei "in process": a premissa básica está na convicção de que a configuração do caminho não é determinada de forma apriorística; ao contrário, é o processo vivenciado pelo sujeito-documentarista-pesquisador que faz emergir as questões a serem articuladas no estudo.



O conceito de decisão-tomada abarca, então, as seguintes ideias: 1) um filme é, sim, o resultado de uma sucessão de tomadas de decisão; 2) o momento da tomada, isto é, o intervalo de tempo durante o qual é registrado, para o espectador futuro, o encontro entre o sujeito-da-câmera e os sujeitos filmados, constitui o núcleo da realização documentária; 3) uma vez que, no transcorrer da tomada, a decisão recaia sobre determinado recorte do espaço (recorte que sempre comporta um "in" e um "off") durante um determinado período de tempo, a imagem-câmera estará formada: não se pode voltar no tempo para fazer uma escolha diferente, da mesma forma que a imagem-câmera constituída, a menos que seja apagada, não deixará de existir.



Proponho, assim, o conceito de decisão-tomada para promover a reflexão sobre a realização documentária a partir da experiência do diretor de documentário, notadamente, o documentário realizado sob o risco do real – aquele em que o documentarista adota a indeterminação da tomada como sua principal estratégia de abordagem da realidade a ser filmada.
Bibliografia

BORDWELL, David. Figuras traçadas na luz: a encenação no cinema. Tradução de Maria Luiza Machado Jatobá. Campinas: Papirus, 2008.



COMOLLI, Jean-Louis. Ver e poder: a inocência perdida: cinema, televisão, ficção, documentário. Tradução de Augustin de Tugny, Oswaldo Teixeira, Ruben Caixeta. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.



GIACOMINI, Jair Marcos. Partilhas do documentário: a experiência na realização de Bateia. Tese de doutorado (Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social) – Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 2016.



RAMOS, Fernão Pessoa. A mise-en-scène do documentário: Eduardo Coutinho e João Moreira Salles. In: Rebeca – Revista Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual Ano 1 número 1, janeiro-julho 2012, p. 16-53. São Paulo: Socine, 2012.



RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível: estética e política. Tradução de Mônica Costa Netto. São Paulo: EXO experimental org.; Ed. 34, 2005.