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  Título
Love: quando a comédia romântica encontra a ficção seriada
Autor
CAROLINA OLIVEIRA DO AMARAL
Resumo Expandido
A comédia romântica foi definida por Billy Mernit (2001) como uma comédia, cuja trama principal trata de um relacionamento amoroso de um casal, com todas as tramas secundárias subordinadas ao romance central. Mernit trata exclusivamente de longas-metragem de ficção, mas nessa definição se encaixa a série da Netflix, Love (Judd Apatow, Paul Rust, Leslie Arfin, 2016-). A série recria típicos passos de uma comédia romântica em temáticas de episódios: a apresentação, o encontro, a sedução, o sexo, os contratempos, a separação, a correria.

A teoria de gêneros cinematográficos proposta por Deleyto (2009) argumenta que os filmes participam simultaneamente de convenções genéricas diferentes. Inspirado nas ideias de Derrida e Rick Altman, Deleyto propõe que convenções de comédias românticas podem ser encontradas em thrilers, western e outros gêneros consagrados. O autor não fala sobre formatos televisivos, e muito menos de streaming, por isso, pretendemos expandir o que ele chama de “espaço da comédia romântica” para outras possibilidades audiovisuais. Love atualiza esse espaço típico do gênero: “cômico, protetor, sexualmente carregado”.

Partindo de seus personagens principais Mickey (Gilliam Jacobs) e Gus (Paul Rust) que se conhecem, se envolvem, se aproximam e se afastam, Love intensifica as convenções do gênero através da ficção seriada. No episódio piloto, Mickey e Gus são mostrados paralelamente vivendo situações similares e reagindo de maneira às vezes opostas, às vezes parecidas, até no final se conhecerem por casualidade. O segundo episódio se dedica completamente ao primeiro encontro que se transforma num longo dia juntos. Os dois só aparecerem enquanto casal cinco episódios depois, para se afastarem logo em seguida e serem reunidos novamente ao final da primeira temporada. A convenção de só reunir o par romântico ao final para que “quanto mais longa a espera, mais potente o enlace final esperado pelo espectador” (Amaral, 2016, p.79) se fortalece através do detalhamento em episódios e do tempo de espera entre uma temporada e outra.

Ao invés de um longa-metragem de 90 minutos, 10 episódios de meia hora para serem assistidos a qualquer momento, do início ao fim, por streaming. O contato mais que triplicado com o espectador, e a possibilidade de novas temporadas, potencializam a cumplicidade de um gênero cuja energia provém da junção de um casal que se encontra, desencontra e reencontra, com o público que torce para que tudo dê certo. Este artigo pretende aproximar Love da comédia romântica, e perceber as características de produção do gênero que também podem ser observadas nas ficções seriadas.

Diferente dos filmes-franquias, a aposta atual de Hollywood, com grandes investimentos que rendem através de diversos outros produtos em cadeia, as comédias românticas e os shows televisivos costumam priorizar o investimento no roteiro e na criação de personagem, a preocupação com o elenco e a química entre eles, para criar um laço definitivo com o espectador: “é uma questão de casting e não de packaging (...) e não é como muitos filmes têm sido feitos hoje em dia” afirma a produtora Linda Obst numa reportagem que pretende entender porque as comédias românticas parecem desaparecer enquanto grandes produções . A partir dessas proximidades, das particularidades dos serviços de streaming, e da noção de “ciclos de produção”, um conceito de Rick Altman que compreende um período de ascensão e queda de popularidade de um gênero cinematográfico (Freire, 2014), entrelaçamos estudos sobre ficção seriada e comédia romântica, para enriquecer a análise textual da série. Por fim, sugerimos se tratar não de um caso isolado, mas de um novo ciclo de produção do gênero, com outros exemplos semelhantes surgindo paralelamente na indústria televisiva norte-americana que vive o que muitos chamam de “época de ouro”.
Bibliografia

ALTMAN, Rick. Film/Genre. London, BFI, 1999.

AMARAL, Carolina Oliveira do. Jogos de amor e de espectador. Novos Olhares, São Paulo, v. 4, n. 2, p. 72-81, feb. 2016.

BRODESSER-AKNER, Claude. Can the romantic comedy be saved. Vulture, 27 de Dezembro de 2012. Disponível em http://www.vulture.com/2012/12/can-the-romantic-comedy-be-saved.html.

DELEYTO, Celestino. The secret life of romantic comedy. Manchester and New York: Manchester University Press, 2009.

FREIRE, Rafael de Luna. Carnaval, mistérios e gangsters: o filme policial brasileiro. Tese de Doutorado em comunicação - UFF, 2011.

MERNIT, Billy. Writing the romantic comedy: from “cute meet” to “joyous defeat” how to write a screenplay that sell. New York: Harper, 2001.

MITTEL, Jason. A Cultural Approach to Television Genre Theory. Cinema Journal. 40.3 (2001).