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  Título
História e Cinema: memórias do Trabalho em ditaduras ibero-americanas
Autor
valeria marques lobo
Resumo Expandido
O cinema ocupa um lugar de destaque na difusão da história, fomentando a reflexão e o debate em torno de determinados episódios ou contextos. Em certos casos, a produção fílmica contribui para revelar memórias e histórias, tornando-se fonte fundamental para a pesquisa em História. Em contextos autoritários, quando a produção de textos e de documentos escritos se vê prejudicada por força da censura e da repressão, muitas vezes as imagens restam como único vestígio de um determinado episódio ou contexto. Imagens e memórias constituem a matéria-prima de diversas narrativas fílmicas que contribuíram para trazer à luz histórias que compõem o cenário do último ciclo autoritário experimentado pelas sociedades latino-americanas entre as décadas de 1950 e 1980.

Tendo em vista que os governos ditatoriais emergiram como uma reação às mudanças que, de forma mais ou menos acentuadas, eram promovidas por governos reformistas que se ocupavam de fixar políticas públicas orientadas para redução da miséria, das desigualdades sociais e do desequilíbrio entre capital e trabalho, que marcaram profundamente a trajetória de constituição do capitalismo naquelas sociedades, a parcela mais atingida pela ruptura institucional era composta por aqueles que eram os principais beneficiários daquelas políticas, isto é, os trabalhadores. Esses foram afetados e reagiram de maneiras distintas conforme o cenário nacional. Muitas das experiências desses trabalhadores ainda não vieram à luz, outras têm sido reveladas pelo trabalho não apenas dos historiadores, mas também de outros profissionais, como fotógrafos, cinegrafistas e cineastas. Em certos casos, tais experiências tornam-se objeto de pesquisa de historiadores que se valem, inclusive, de fontes imagéticas, entre as quais destacam-se as fontes fílmicas.

O objetivo desta comunicação consiste em analisar filmes contextualizados nas ditaduras do Cone Sul protagonizados por trabalhadores. Abordam-se obras referentes às ditaduras instaladas entre 1954 e 1973 no Paraguai, Brasil, Argentina, Uruguai e Chile. Reflete-se sobre diferentes aspectos do mundo do trabalho observados nesse período a partir da narrativa fílmica.

A singularidade do argumento foi o que orientou a seleção dos filmes, os quais, contudo, possuem em comum a preocupação de revelar histórias de indivíduos ou coletivos de trabalhadores ocorridas durante os regimes autoritários. Os trabalhadores são apresentados ora como vítimas da repressão, ora como objeto da solidariedade operária internacional, ora como sujeitos da resistência à supressão da liberdade de expressão, organização e manifestação, por meio da qual governantes buscaram assegurar aos empregadores maior autonomia na definição dos termos de contratação, acentuando o desequilíbrio de forças entre Capital e Trabalho. Nesse ponto, a abordagem alcança caráter interdisciplinar, recorrendo a conceitos e métodos próprios da análise sociológica e mesmo antropológica.

Também pesou na triagem a trajetória particular de cada obra. Nesse sentido, a abordagem possui o objetivo suplementar de analisar o papel dos profissionais do audiovisual e da fonte fílmica no resgate da memória de períodos nos quais predomina a subtração de informações. Diversas histórias capturadas pelas lentes de cineastas, se não chegam a ser inéditas, são praticamente desconhecidas. Sua revelação é importante para aprimorar o conhecimento acerca do período em que os militares protagonizaram a política na região. No entanto, também são relevantes para a compreensão do tempo histórico as particularidades que marcam a realização das obras.

Após analisar inúmeros filmes, o que contou, ao cabo, foi sua relevância no sentido de fomentar a reflexão acerca de determinadas posturas governamentais e ações coletivas e/ou individuais; informar o debate sobre o uso da fonte fílmica para a pesquisa em História; bem como sua capacidade de revelar memórias, histórias e biografias de trabalhadores sob as Ditaduras do Cone Sul.
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