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  Título
O humor político nos filmes do Grupo Cine de la Base
Autor
Cristina Alvares Beskow
Resumo Expandido
A utilização do fator cômico para retratar as contradições sociais e ridicularizar figuras opressoras remonta o cinema silencioso, no início do século XX. Um de seus precursores é Charles Chaplin e seu famoso personagem Carlitos, que se consolidou como uma arquétipo cômico e crítico dos despossuídos, do lúmpen da sociedade capitalista. Os filmes do cinema soviético, como os de Sergei Eisenstein, também recorreram à figura satírica do burguês, como em “A greve” (1925), uma maneira eficiente de ressaltar os aspectos ridículos da aristocracia derrotada pela Revolução Russa. No entanto, apesar de termos alguns exemplos de humor político no cinema, pode-se dizer que o cinema militante, de maneira geral, pouco se apropriou desta ferramenta até os anos setenta. Na América Latina, em especial, temos alguns exemplos, como sátiras de figuras políticas em filmes de Glauber Rocha, como “Terra em transe” (1967), ou a crítica à burocratização do estado na comédia cubana “A morte de um burocrata”, de Tomás Gutierrez Alea. No entanto, a comédia política é escassa comparada às outras linguagens e gêneros mais utilizados pelo cinema militante, como o documentário e o drama.



O Grupo Cine de la Base, que tinha como principais integrantes os cineasta Raymundo Gleyzer, Nerio Barberis, Jorge Denti e Alvaro Melián, reconhecia a potência do humor nos filmes políticos. Em entrevista realizada em setembro de 1974 , seus integrantes observam a carência de humor nos filmes políticos latino-americanos e apontam para a importância deste recurso. O grupo, braço cinematográfico do Partido Revolucionario de los Trabajadores - Ejército Revolucionario del Pueblo (PRT-ERP), de tendência marxista, surge em 1973 com a intenção de usar o cinema como arma política de contra-informação e ferramenta de mobilização da classe trabalhadora. Apesar de priorizarem a linguagem documental nos filmes, o grupo fez algumas experimentações mesclando denúncia e sátira social nos filmes “Los traidores” (1973) e no curta-metragem “Me matan si no trabajo y si trabajan me matan” (1974), recursos fílmicos de humor político que ridicularizam a figura do burguês. Nestes dois filmes, há trechos que utilizam alegorias da burguesia e/ou autoridades sindicais e governamentais, tornando risível sua atuação política. Em ambos os casos, os trechos estabelecem uma ruptura na estrutura narrativa do filme, causando distanciamento entre o espectador e o filme. No documentário “Me matan si no trabajo y si trabajo me matan (1974)”, a sátira se dá por meio de uma animação didática, que ilustra o conceito de mais-valia a partir de uma caricatura do burguês (dono da fábrica) e dos operários. Já, na ficção “Los traidores” (1973), há uma sequências onírica-satírica, em que um sonho do personagem principal traz à tona, de maneira burlesca, representações caricaturais do então presidente da Argentina e do dirigente sindical da Confederación General de los Trabajadores (CGT), expondo ao ridículo seus discursos, por meio da sátira e da paródia.



Ambos os filmes abordam a luta da classe trabalhadora a partir de diferentes enfoques. "Los traidores" (1973) denuncia a burocratização sindical peronista e "Me matan si no trabajo y si trabajo me matan" (1974) aborda a luta direta dos operários da fábrica Insud por direitos e por melhores condições de trabalho. Os trechos que se utilizam de ferramentas cômicas são maneiras de expor o opressor ao ridículo e deslegitimá-lo socialmente, provocando o que Georges Minois (2003, p.471) chama de “riso de dessacralização”, este que desmistifica os poderes instituídos. Assim, podemos dizer que estas sequências que se utilizam do humor político também cumprem uma função pedagógica nos filmes militantes, pois encenam o absurdo das relações de poder no sistema capitalista e estimulam o riso de contestação, o “riso partidário” que “caçoa do adversário político e social” (MINOIS, p. 471) e estimula o riso de “coesão social”, estabelecendo solidariedade e identidade de classe.
Bibliografia

BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 2012.



BAKHTIN, Mikhail Mikhailovich. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2010.



MESTMAN, Mariano. Mundo del trabajo, representación gremial e identidad obrera en Los traidores (1973). Nuevo Mundo, Mundos Nuevos. Paris, Dezembro de 2008.



MINOIS, Georges. História do riso e do escárnio. Tradução Maria Elena O. Ortiz. Assumpção. São Paulo: Editora UNESP, 2003.



PEÑA Fernando Martin e VALLINA, Carlos. El Cine Quema: Raymundo Gleyzer. Buenos Aires, Ediciones de la Flor, 2000.



PIEDRAS, Pablo. Los traidores, de Raymundo Gleyzer. Estilos y estrategias de actuación en el cine político. En: Revista Afuera, n.4, mayo 2008.



RUSSO, Pablo Mariano. Representaciones de los trabajadores y sus conflictos en el cine argentino: Los traidores de Raymundo Gleyzer, Revista electrónica Questión (UNLP), número 19, 2008.