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  Título
Godard-Górgias: materialização da palavra em imagem no corpo feminino
Autor
Maria Cecília de Miranda Nogueira Coelho
Resumo Expandido
A relação de Godard com a literatura grega não é desconhecida. Lembremos de Le Mépris (1963, adaptação do romance homônimo de Moravia, de 1954), inspirado na Odisseia de Homero, mesmo com sua “deflação épica” como afirmou Stam, que o definiu como “um transtexto cinematográfico e literário” (p. 376). Não é inoportuno lembrar, ainda, que esse filme caracteriza o cinema – na famosa abertura, pela citação atribuída a Bazin – como um mundo com o qual nosso desejo pode se ajustar. Menos conhecida na obra de Godard, e também lidando com as consequências das ações movidas pelo desejo, é sua releitura peculiar do mito de Alcemna, em Hélas pour moi (1993). Se esses dois filmes permitem falar de uma relação entre palavra e imagem com referências explícitas a temas da literatura clássica grega, o mesmo não ocorre com Une Femme Mariée (1964). No entanto, ainda que não seja adaptação de uma narrativa mitológica clássica, a meu ver este filme, quanto às estratégias retóricas de apresentação do(s) tema(s) e da protagonista, tem semelhanças notáveis com o mais famoso texto do sofista Górgias, o Elogio de Helena. Destarte, o que proponho, aqui, é comparar a representação da figura feminina no filme de Godard e no polêmico texto sobre Helena, o qual, ao tentar mostrar que a bela espartana não pode ser responsabilizada por ter partido para Troia (e pela guerra, advinda desta ação), constrói sua defesa a partir de em um cuidadoso exercício de linguagem, em prosa poética, explorando os sentidos da palavra corpo (soma), de tal modo que o elogio de Helena é, ao mesmo tempo, um elogio à palavra (logos) e à sua possibilidade de dar visibilidade ao que é dito (uma enargeia ou evidentia). Elogiar o discurso e sua corporeidade é também um elogio ao poder da visão, sentido associado intrinsecamente à atividade persuasiva e à produção de emoções, e Górgias faz isso mostrando, ainda, como o próprio discurso deve ser visto como um corpo – um eidola legomena, imagem falada, para usar a perspicaz expressão de Platão (Sofista, 234c). Para evidenciar isto no texto gorgiano, além da sua análise, me apoiarei nos estudos epistemológicos e estéticos sobre o uso de imagens mentais na produção de linguagem e de comunicação (Webb e Didi-Huberman). Por outro lado, inspirada pela perspectiva de N. Carroll (p. 214), em sua análise de Vertigo como uma historia de amor e não de suspense, seguirei, em parte, sua metodologia, tomando a protagonista de Une Femme Mariée como um “universal concreto”, isto é, a “mulher casada”, vista como abstração, alegoria do desejo e da beleza, ganha, na tela do cinema, concretude e singularidade no corpo de Charlotte. Portanto, os close-ups de (partes) seu corpo não são exercícios eróticos, mas evidências coladas em anúncios e outdoors, que, paradoxalmente, desconstroem qualquer atração ingênua e fazem refletir sobre a própria linguagem da sedução. A fim de compreender melhor o tema proposto, pretendo fazer uma breve comparação do filme de Godard com Gertrud (1964), de Dreyer, adaptação da peça de Hjalmar Soederberg, que Daney (p. 274), com razão, disse ser magistral por levar à tela amor e adultério por parte de uma mulher orgulhosa de acabar com os “fantasmas masculinos que a assombraram” e que “dirige sua vida tal como Dreyer dirige seu filme”. A comparação de algumas cenas dos dois filmes, por sua vez, revela dois modos muito peculiares de dar visibilidade à presença feminina e às consequências das opções dos diretores ao construírem um discurso imagético sobre ela. Poder-se-ia perguntar, como faz Ricouer (p. 18), discutindo uma metafísica da presença e sua conexão com a memória e a ilusão: “Ariscar-nos-emos a falar tranquilamente de fantasia, de fantástico, como os gregos ?” A meu ver, voltar a Górgias/Helena, à luz de Godard e Dreyer, é uma tarefa arriscada, mas sedutora e profícua, para pensar a relação entre palavra e imagem e a presença de pressupostos filosóficos tão antigos em um tema tão contemporâneo.
Bibliografia

CARROLL, N. Vertigo and the pathologies of Romantic Love. In: BAGGETT, D. e DRUMIN, W. (ed.) Hitchcock and Philosophy - Dial M for Metaphysics. Chicago: Open Court. 2011, p. 101-114.



DANEY, S. Gertrud. In: O olhar de Ulisses – catalogo. Lisboa: Cinemateca Portuguesa, 2001, p. 213-275.



DIDI-HUBERMAN, G. Phasmes - essais sur l´apparition. Paris: Ed. de Minuit, 1998.



FAROCKI, H. Palavras-chave, Imagens-chave. Diálogo com Vilén Flusser. In: YOEL, G. (ed.) Pensar o cinema - imagem, ética e filosofia. São Paulo: CosacNaify, 2015, p. 157-161.



GÓRGIAS. Elogio de Helena. Trad. M.C.M.N. Coelho. Cadernos de Tradução 4. São Paulo : Humanitas/USP, 1999



RICOUER, P. A memória, a história, o esquecimento. Campinas: Ed. Unicamp, 2007.



STAM, R. A literatura através do cinema. Belo Horizonte: UFMG, 2008.



VOUT, C. Sex on Show - seeing the erotic in Greece and Rome. London: British Museum Press, 2013.



WEBB, R. Sight and insight: theorizing vision, emotion and imagination in Ancient Rhetoric. In: SQUIRE, M. (ed.) Sight and the Ancient Senses. New York: Routledge, 2016.