Voltar para a lista
 
  Título
Aloysio Raulino, leitor de Borges
Autor
Glaura Cardoso Vale
Resumo Expandido
Suponho ser lugar comum afirmar que Jorge Luís Borges tenha uma escrita labiríntica e atravessada por enigmas. Referindo-se, dentre outros, a’O Aleph, Ricardo Piglia diz que na literatura “aquele que lê está longe de ser uma figura normalizada e pacífica (...) antes, aparece como um leitor extremo, sempre apaixonado e compulsivo” (2006, p. 21). Maurice Blanchot, ao suspeitar que Borges recebeu o infinito da literatura, afirma que esta “não é uma simples trapaça, é o perigoso poder de ir em direção àquilo que é, pela infinita multiplicidade do imaginário” (2005, p. 139). Esse jogo, marcado pela reversibilidade entre o ler e o escrever, não se trata de um falar de si ensimesmado, mas de colocar em diálogo os gestos próprios da leitura e da escrita, refletir sobre as referências literárias e culturais, e sobre a devolução das palavras e imagens ao mundo. Igualmente labiríntico, Inventário da Rapina (1986), de Aloysio Raulino, coloca em movimento esses dois gestos, presentificados na tela pela grafia, pelo livro em cena, a máquina de escrever, pela leitura em voice over, apropriando-se de textos do poeta Cláudio Willer, dentre outras estratégias. Em busca de O livro de areia do escritor argentino, ao voltar a câmera para si mesmo, o cineasta narra o encontro numa livraria com um personagem enigmático e introduz uma atmosfera tipicamente borgiana, friccionando cinema e literatura.



É comum na literatura encontrarmos a leitura e a escrita encenadas através de personagens que escrevem e leem cartas, livros, diários e da própria estrutura textual se apropriar de um gênero (diário, ensaio, epistolar, teatral, cinematográfico) para organizar a narrativa. No cinema, a presença desses gestos é também comum, seja na ficção ou documentário, destacando aqui alguns estudos no Brasil sobre o tema: o conhecido livro de José Carlos Avellar (O chão da palavra, 2007), os livros de Mário Alves Coutinho (Escrever Com a Câmera a Literatura Cinematográfica de Jean Luc Godard, 2010) e Maurício Salles Vasconcelos (Jean-Luc Godard - História(s) da literatura, 2015), as dissertações de Marilia Rocha (O ensaio e as travessias do cinema documentário, 2006) e Carla Italiano (Senti que me partia em mil pedaços: aproximações entre as escrituras fílmicas de David Perlov e Jonas Mekas, 2015) e a tese de Ilana Feldman (Jogos de cena: ensaios sobre o documentário brasileiro contemporâneo, 2012), bem como seus estudos recentes sobre os diários de David Perlov. Com esse espectro, nos afastamos dos estudos que elaboram seus argumentos estritamente a partir das adaptações literárias, para discutir a árdua tarefa do escritor-cineasta e o seu trabalho de leitura. Como diz Raulino em um de seus haikais: "O cinema/ se oculta se/ expande/ no coração da/ desordem" (In: Celeste, separata que acompanha o Catálogo do forumdoc.bh.2013).



Para esta apresentação, procurarei aprofundar as reflexões que acompanham o Fotograma comentado, “Escrita e leitura do movimento no cinema de Aloysio Raulino”, publicado na revista Devires, quando tento, à luz de Jair Fonseca e outros autores, investigar a presença da escrita e da leitura como aspectos fundantes da mise-en-scène em Inventário da Rapina. Com uma fortuna crítica ainda restrita – destacando as recentes reflexões de Victor Guimarães sobre as figuras do povo nesse cinema em diálogo com a cinematografia latinoamericana desde Fernando Birri –, Aloysio Raulino parece buscar no enigma borgiano uma dobra em seu filme (como a dobra de um livro) ao nos apresentar um personagem literário misterioso dentre os demais personagens que sua câmera encontra. É em torno deste enigma – e de Raulino leitor – que pretendo discorrer.
Bibliografia

ARBEX, Márcia (org.). Poéticas do visível - ensaios sobre a escrita e a imagem. BH: FALE UFMG, 2006.

ARRIGUCCI JR., D. Alexandre, leitor de Borges. Remate de Males, Unicamp, 2009.

BLANCHOT, M. O livro por vir. SP: M. Fontes, 2005.

BORGES, J. L. O livro de areia. Porto Alegre: Ed. Globo, 1978.

DUMANS, J. A sinfonia dos pobres (ou a modernidade de Aloysio Raulino). In: Forumdoc.bh, Filmes de Quintal, 2013.

FONSECA, Jair. Cinepoesia: a dança da música da luz. In: Forumdoc.bh, Filmes de Quintal, 2013.

GUIMARÃES, César; SEDLMAYER, S. A vespa e a orquídea: encontros entre o cinema e a literatura. Rev. Devir, BH, p. 83-89, dez. 1999.

GUIMARÃES, Victor. Noites Paraguayas, de Aloysio Raulino (Brasil, 1982). Cinética, dez. 2013.

PIGLIA, R. O último leitor. SP: Cia das Letras, 2006.

SEDLMAYER, Sabrina. Pessoa e Borges, quanto a mim, eu. Lisboa: Vendaval, 2004.

VALE, Glaura C. Escrita e leitura do movimento no cinema de Aloysio Raulino. Devires, V. 10, N. 2, P. 78-87, JUL/DEZ 2013.