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  Título
Mobz, Inteligência Coletiva e Mobilizações de Sessões de Cinema.
Autor
Jose Maria Mendes Pereira Junior
Resumo Expandido
É prudente perceber que se vive um momento de individualização no consumo de filmes. Mas como manter o foco no grupo em uma mídia de entretenimento de recepção coletiva, como o cinema, nesse contexto de autonomia do receptor? O Mobz refletiu esse pensamento ao instituir o critério de mobilização. A base estrutural da empresa estaria no poder da coletividade em fazer a escolha de qual filme assistir, para além das opções corriqueiras da tradicional cine-semana. Objetivo desse artigo é refletir sobre essa experiência de agendamento de filmes através da inteligência coletiva (LÉVY, 1999). Para tanto, o pesquisador realizou uma observação participante (MARCONI; LAKATOS, 2000), entre os anos de 2008 e 2011, inscrevendo-se na comunidade virtual/ plataforma comercial Mobz, com o intuito de utilizar aquela forma de agregação para tentar solucionar o problema de assistir aos filmes “fora de circuito”, na cidade de João Pessoa-PB. “A distribuidora anunciada não trabalharia no formato tradicional de mercado, mas sim, atendendo às demandas específicas, como, por exemplo, viabilizar a exibição de filmes clássicos ou fora de catálogo das distribuidoras” (LUCA, 2009, p.54). Percebia-se a tentativa de mudança de mentalidade pré-filtro, em que o exibidor determina os filmes que entrariam em cartaz devido à “prateleira” limitada (ANDERSON, 2006), ou seja, a quantidade de salas, para a dinâmica pós-filtro, facilitando o processo de entrega dos conteúdos via escolha do público ou de mobilização deste em torno de seus verdadeiros interesses de consumo. É precisamente nessa entrega e mobilização, que a inteligência coletiva entrava em cena, para sanar uma problemática comum aos cinéfilos. Por outro lado, o foco do coletivo reunido no Mobz, não somente em torno de uma proximidade semântica (gostar de filmes), mas, principalmente, em torno de um problema definidor (querer assistir a filmes específicos) mostrou-se um fator complicador, já a particularização funcional em torno dos filmes a serem mobilizados, ao invés de auxiliar as interações entre os usuários, acabava por miná-las, já que o único objetivo seria entrar no site para se inscrever numa mobilização. Esta, explícitas no slogan publicitário da ferramenta (“Mobz é mobilização. Mobilização é poder”), incutiam uma meia-verdade. O poder, de fato, sempre pertenceu aqueles que, como bem frisa o verbo utilizado pelo criador, Fábio Lima (2009), ao descrever sua ferramenta, “agendam os filmes”. O ato de “agendar”, não é preenchido pelo sujeito “usuários”, mas sim pelos dirigentes do Mobz em acordo com os exibidores. Tal fato, explícito em mudanças posteriores, como foco na plataforma comercial e a perda da função de rede social, e até mesmo na retirada desse slogan, reforçam que não é a vontade da inteligência coletiva que está presente nas decisões em torno das mobilizações, mas sim de um “coletivo inteligentemente gerenciado” (LÉVY, 1999). A caracterização do Mobz coloca os usuários como meros “beneficiados” e, ainda que hajam também "legitimadores", ou seja, usuários tentando, através de softwares sociais como Twitter e Facebook, fazer com que a produção que desejam assistir seja exibida, os reais “geradores” destas mobilizações continuavam sendo os gerenciadores da empresa/ exibidores. Nessa tríade, “beneficiados”, “legitimadores”, “geradores”, nota-se que não há autonomia de realização pelos usuários; o que levava a uma vinculação com o projeto de mobilização sempre baixa (HENRIQUES et all, 2007). Então, mesmo que se crie uma rede social para que usuários interajam, ou integre-se a uma plataforma comercial as possibilidades ainda mais amplas das plataformas da web 2.0, a inteligência coletiva aplicada ao problema definidor da mobilização pelo Mobz não revela todo o seu potencial, especialmente devido à configuração do mercado, centralizadora desde os tempos da Revolução Industrial, não estando ausente apenas porque todos possuem o “poder” de voz, na “cultura participativa” (JENKINS, 2008).
Bibliografia

ANDERSON, Chris. A cauda longa: do mercado de massa para o mercado de nicho. São Paulo: Campus, 2006.



BRAGA, Rodrigo Saturnino. Distribuição cinematográfica. In: DIAS, Adriana; SOUZA, Letícia de. Film Business: o negócio do cinema. Rio de Janeiro: Elsevier, 2010.



HENRIQUES, Márcio Simeone; BRAGA, Clara Soares; SILVA, Daniela Brandão do Couto e; MAFRA, Rennan Lanna Martins. Relações públicas em projetos de mobilização social: funções e características. In: HENRIQUES, Márcio Simeone. Comunicação e estratégias de mobilização social. Belo Horizonte: Autêntica, 2007. JENKINS, Henry. Cultura da Convergência. São Paulo: Aleph, 2008.



LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 1999.



LUCA, Luiz Gonzaga Assis de. A hora do cinema digital: democratização e globalização do audiovisual. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009.



MARCON, Marina de Andrade; LAKATOS, Eva Maria. Metodologia científica. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2009.