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  Título
O personagem cinematográfico: do corpo filmado ao corpo do filme
Autor
João Vitor Resende Leal
Resumo Expandido
Retomando as proposições acerca do “cinema de atrações” e do “cinema de integração narrativa” de Gaudreault e Gunning (1989), Jonathan Auerbach argumenta que o corpo humano seria o alicerce primitivo da narrativa cinematográfica: desafiado a fazer sentido do movimento e das repetidas aparições do corpo humano a cada filme, o espectador teria se habituado a acompanhar as histórias que o cinema começava a lhe contar (AUERBACH, 2007, p.103). Entendemos que essa articulação entre cinema, corpo e narrativa, deduzida e construída aos poucos pelos realizadores e espectadores do primeiro cinema, cristalizou-se na categoria do personagem cinematográfico. De uma forma geral, entendemos hoje que o personagem de ficção cinematográfico se manifesta através do corpo de um ator, e que a simples aparição desse corpo bastaria para nos remeter ao personagem. Personagem e corpo, no entanto, coincidem apenas temporária e parcialmente: o personagem encontra no corpo do ator somente uma base material à qual ele não pode ser reduzido e da qual ele pode se desligar com relativa facilidade, enquanto o corpo e a performance do ator fazem provas de uma materialidade que invariavelmente excede a existência do personagem. Assim como o ator não é o personagem, o personagem cinematográfico não é um corpo; ele não é apenas um corpo, mas ele pode ser, também, um corpo. É essa dinâmica do complexo corpo-personagem que pretendemos confrontar nesta comunicação. Para tanto, tomaremos como ponto de partida o deslocamento sugerido por Patrice Pavis, pelo qual o personagem deixa de ser uma entidade constante dentro do universo do filme para se tornar um efeito previsto pelo filme que deve ser atualizado pelo espectador: “Contrariamente ao que pode parecer uma evidência, nós não temos acesso direto ao personagem (...). Nós estamos, na melhor das hipóteses, em presença de efeitos de personagem, de traços materiais, indícios dispersos que permitem uma certa reconstituição por parte do espectador” (PAVIS, 1997, p. 171). Tendo por base essa concepção do personagem como “efeito de personagem”, buscaremos refletir sobre o modo pelo qual esse efeito é percebido, como ele atinge nossos sentidos e como nós somos levados a compreendê-lo. Cada um desses três modos de apreensão (percepção, sensação e compreensão) nos permitirá desvendar uma faceta distinta do personagem cinematográfico. Ao longo da exposição, com o intuito de ilustrar e colocar à prova o percurso teórico que visamos empreender, dirigiremos nossa atenção para filmes que problematizam de forma consequente o complexo corpo-personagem, seja implicando vários corpos na composição de um mesmo personagem – como Não estou lá (I’m not there, Todd Haynes, 2007) e O mundo imaginário do Dr. Parnassus (The imaginarium of Doctor Parnassus, Terry Gilliam, 2009) –, seja implicando um único corpo na composição de vários personagens – como Império dos sonhos (Inland empire, David Lynch, 2006) e Holy motors (Leos Carax, 2012). Esperamos que, através do embate com esses e outros filmes, possamos testemunhar a riqueza conceitual do personagem cinematográfico, bem como vislumbrar uma abordagem teórica capaz de apreendê-lo sem desfazer sua complexidade.
Bibliografia

ARNAUD, D. Changements de têtes: De Georges Méliès à David Lynch. Pertuis: Rouge Profond, 2012.



AUERBACH, J. Body shots: Early cinema’s incarnations. Berkeley, Los Angeles, Londres: University of California Press, 2007.



BRENEZ, N. De la figure en général et du corps en particulier. Bruxelas: DeBoeck Université, 1998.



CANDIDO, A. et al. A personagem de ficção. São Paulo: Perspectiva, 2011.



GARNIER, X. L’éclat de la figure: Étude sur l’antipersonnage de roman. Bruxelas, Berna, Berlim: PIE - Peter Lang, 2001.



GAUDREAULT, A.; GUNNING, T. “Le cinéma des premiers temps: Un défi à l’histoire du cinéma?” In AUMONT, J.; GAUDREAULT, A.; MARIE, M. (org.). Histoire du cinéma. Nouvelles approches. Paris: Sorbonne/Colloque de Cerisy, 1989, p. 49-63.



GUMBRECHT, H.. Produção de presença: O que o sentido não consegue transmitir. Rio de Janeiro: Contraponto, 2010.



PAVIS, P. “Le personnage romanesque, théâtral, filmique” in Iris, nº24, 1997, p. 171-183.