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  Título
ESTRUTURAS NARRATIVAS NAS ANIMAÇÕES DE SYLVAIN CHOMET
Autor
Mariana Aymee Sacchetto
Resumo Expandido
No final do século XIX, os irmãos Lumière não acreditavam que o cinema serviria como entretenimento social. Então, a partir da ideia do cinema contar histórias iniciou-se a criação de uma linguagem própria com o uso de dois pontos fundamentais: a criação de estruturas narrativas e a relação com o espaço.

O objetivo deste trabalho é estudar a aplicabilidade do método desenvolvido por Field (1996) na estrutura narrativa de Sylvain Chomet nas duas obras, já mencionadas. O método desta pesquisa consistiu em uma análise qualitativa bibliográfica sobre cinema de animação, estrutura narrativa e da metodologia de Field (1996), além das observações sobre os próprios filmes, objetos desta pesquisa.

Segundo Houaiss, o cinema de animação é o “gênero cinematográfico que consiste na produção de imagens em movimento a partir de desenhos, bonecos ou quaisquer objetos filmados ou desenhados “quadro a quadro”. Nesse conceito incluem-se os desenhos animados, as animações abstratas e os efeitos visuais.

A estrutura narrativa consiste basicamente em “como” a história será contada. Field (1996, p.33) diz que “de fato, narrativa significa contar uma história, o que supõe um sentido de direção, um movimento, uma linha de ação do início ao fim”.

Field dispôs que a estrutura narrativa consiste em três atos. Segundo ele: inicia-se o filme no Ato I, no contexto da apresentação, no qual apresentam-se os personagens, as situações que os afetam e o ambiente. O Ato II é aquele “novo rumo” em que o personagem principal confronta alguns obstáculos e conflitos para alcançar o drama. Já o Ato III é o momento da história que logo irá se resolver positiva ou negativamente para o protagonista.

Em “As bicicletas de Belleville”, a metodologia de Field é perfeitamente aplicável e clara, pois todos os atos são objetivamente perceptíveis. O filme conta a história de Champion, um menino tristonho que mora com a avó na França, que para lhe agradar o presenteia com um cão, no entanto, somente quando ganha uma bicicleta é que a narrativa ganha contornos felizes. Percebendo a aptidão do menino para o ciclismo a avó lhe incentiva à prática do esporte. O tempo passa. Já adulto Champion se inscreve para o Tour de France. Apesar da dedicação e do treino árduo, Champion não termina o percurso, bandidos o sequestram e o levam para uma metrópole do outro lado do oceano. A avó e o cão Bruno partem em jornada para resgataá-lo e esta viagem os leva a Belleville, um lugar caótico, povoado por pessoas frias e de comportamentos duvidosos.

No caso de “O Mágico”, o método de Field não é evidente, Chomet baseia-se no roteiro original do diretor Jacques Tati. O protagonista é o próprio Tati/Hulot. Apesar de no filme o personagem do mágico permanecer sem nome, a citação torna-se explícita no momento em que a cópia animada e o original projetado encontram-se frente a frente. Isso acontece quando – metalinguagem -, o mágico vê-se diante da projeção na tela de cinema. Neste filme, os diálogos funcionam mais como música do que texto; os personagens de gestos grandiosos tendendo ao exagero estão presentes, além de certa crítica à modernidade.

Por fim, o cineasta Sylvain Chomet em As Bicicletas de Belleville expõe o sarcasmo, a fartura, o consumo, as pessoas obesas e os gangsters inescrupulosos, além da evidência objetiva do método narrativo de Field. No entanto, em O Mágico, mesmo mantendo os excessos do primeiro filme, mas agora com o desencanto, o embate entre o antiquado e o atual, a tristeza, a pobreza e a obsolescência, Chomet utiliza-se do método de Field, mas forja no observador a dúvida, através da metalinguagem e do uso de um roteiro que não o seu. Mas sim, e tão somente, seu guia.
Bibliografia

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