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  Título
Hollywood para América Latina: versões em espanhol no início do sonoro
Autor
Isabella Regina Oliveira Goulart
Resumo Expandido
A voz chegou ao cinema ao mesmo tempo em que as duas “estrelas à brasileira” vencedoras do concurso de beleza fotogênica da Fox Film, realizado em nosso país em 1926, desembarcavam em Nova York. Em 6 de outubro de 1927, acontecia a estreia de “O cantor de jazz” naquela cidade. No dia 12 do mesmo mês, Cinearte publicava “a primeira fotografia oficial da Fox, tirada nos Estados Unidos” do casal Lia Torá e Olympio Guilherme. Inaugurava-se com o filme de Alan Crossland um período de mudanças que passariam por todos os braços da produção industrial hollywoodiana e atingiriam também a carreira dos apreciados Latin lovers, assim como a de tantos atores imigrantes naquele país.

Aqui no Brasil, em Cinearte, além da curiosidade e otimismo patriótico sobre as carreiras de nossas duas “estrelas” nos Estados Unidos, essa obscura novidade da fala, ainda distante de nossas telas, começa a preocupar o grupo de Adhemar Gonzaga. Num primeiro momento, em 1928, a barreira da língua, na iminência de chegarem no país filmes falados em inglês, e especulações feitas a partir de críticas em publicações estrangeiras ou das impressões de colaboradores da revista no exterior movimentaram a imaginação da revista, que olhava para os talkies com desconfiança. A partir de 1929, quando da exibição do primeiro filme com som e imagem em sincronismo, em São Paulo, e com a adaptação do circuito exibidor que seguiria até 1931 nas grandes cidades, as críticas a essas produções, que agora podiam ser vistas em nossas salas, continuariam – embora a possibilidade de realizarmos filmes sonoros aqui trouxesse algum otimismo em relação ao som.

A partir de 1930, outra questão associada ao cinema sonoro, e que colocaria em evidência novos padrões vinculados à nacionalidade e velhos modelos estéticos de qualidade dos filmes afirmados pelo grupo de Gonzaga (o mimetismo em relação ao cinema norte-americano, conforme esboçou Jean-Claude Bernadet), entraria em jogo na pretensa negociação cultural entre a produção hollywoodiana e sua recepção no Brasil: as versões em espanhol. Em abril de 1930, um ano após a inauguração do sonoro na capital paulista, a Cena Muda apontava para a intenção de se produzirem filmes falados em espanhol nos estúdios norte-americanos.

De acordo com autores como Robert Sklar (1978) e Donald Crafton (1999), nos grandes estúdios, como a MGM e a Paramount, reuniram-se elencos estrangeiros completos, que tomavam conta dos cenários originais quando os artistas em língua inglesa acabavam de usá-los, para fazer versões dos longas-metragens norte-americanos. Do mesmo modo, Antonio Rios-Bustamante (1992) se refere ao estabelecimento de departamentos de produção de filmes em língua espanhola por grandes estúdios, como Paramount, Fox, RKO e Warner.

Com a chegada das versões, Cena Muda e, sobretudo, Cinearte, engajada num certo ideal de cinema, o do progresso da indústria brasileira, apontarão para aquele que é nosso principal problema de pesquisa: como a categoria identitária totalizante “latinos” poderia representar uma polifonia de grupos sociais e étnico-nacionais que caracterizam a América Latina, de acordo com o olhar dos produtores hollywoodianos? Em nossas revistas, a exibição das versões em espanhol no Brasil suscita discussões sobre uma ideia de latinidade, sobre o estrelismo (no sentido de possuirmos ou não atores aptos à tela, questão que já havia aparecido durante o concurso da Fox) e afirma padrões de qualidade do cinema pautados, há mais de uma década, pelos filmes hollywoodianos. Na predileção pelo filme original, se o inglês era sempre mais interessante do que o espanhol (como obra cinematográfica e, mesmo, como idioma), isso pode demonstrar uma inferioridade com que certos grupos ligados ao cinema no Brasil viam a América Latina e, ainda, um espelhamento nos Estados Unidos, que, nessa "negociação", teve no cinema um de seus primeiros aparatos de influência cultural.
Bibliografia

BERNARDET, Jean-Claude. Cinema brasileiro: propostas para uma história. São Paulo: Paz e Terra, 1978

CRAFTON, Donald. The Talkies: American Cinema’s transition to sound 1926-1931.

Berkeley: University of California, 1999

FREIRE, R. L. A febre dos sincronizados: os primeiros meses da exibição de filmes sonoros no Rio e em São Paulo em 1929. In: SOUZA, G. et al (orgs.). XIII Estudos de Cinema e Audiovisual Socine. São Paulo: Socine, 2012. 2v

RÍOS-BUSTAMANTE, Antonio. “Latino participation in Hollywood: 1911-45”. In: NORIEGA, Chon A. (ed.). Chicanos and film: representation and resistance. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1992

RODRÍGUEZ, Clara E. Heroes, lovers and others: the story of Latinos in Hollywood. Nova York: Oxford University Press, 2008

SHOHAT, Ella & STAM, Robert. Crítica da imagem eurocêntrica. São Paulo: Cosac Naify, 2006

SKLAR, Robert. História social do cinema americano. São Paulo: Cultrix, 1978

XAVIER, Ismail. Sétima arte: um culto moderno. São Paulo: Perspecti