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  Título
O social, o histórico e o estético nas paisagens do cinema português
Autor
Filipa Raposo do Amaral Ribeiro do Rosário
Resumo Expandido
Enquanto construção, o conceito de paisagem pressupõe um sujeito que habita e/ou observa um determinado território geográfico. É ele, ou ela, que, no processo de contemplação, edifica a paisagem a partir daquilo que vê e sempre em função daquilo que reconhece. Isto é, aquele que observa reproduz no espaço observado os seus próprios e apriorísticos esquemas mentais: na exterioridade, ingenuamente admiramos as nossas próprias formas de ver, afirma Anne Cauquelin (2008: 20).

No cinema, esta projeção inevitável implica, pelo menos, três sujeitos contemplativos: o realizador, a personagem e o espectador, sendo que o olho da câmara poderá partilhar a perspectiva com a personagem, ou não. O espectador, que se encontra do lado de cá do ecrã, apreende sempre esta dinâmica dupla que, por sua vez, irá informar a paisagem que o mesmo espectador edificará.

Do ponto de vista da narrativa fílmica, a questão da edificação da paisagem a partir do cenário pode ser pensada em termos da autonomia do espaço filmado relativamente à ação. Martin Lefebvre distingue duas formas de atividade por parte do espectador na experiência do visionamento: o modo narrativo e o modo “espetacular”, o primeiro fixa-se na atenção dada à ação do filme, o segundo na contemplação e reação à “visualidade” do filme enquanto espetáculo (2006: 28, 56). Assim, este modo “espetacular” alterna com o modo narrativo no decurso do visionamento e, quando o foco deixa de estar na ação que dinamiza a narrativa, surge então a contemplação. Afirma Lefebre: “a contemplação do espetáculo fílmico depende de um olhar “autonomizador”. É este olhar que possibilita a ideia de paisagem fílmica no cinema de ficção narrativo (e no documentário centrado em eventos)” (29).

O cinema português está profundamente ligado à sua história social e nacional. Explica Tiago Baptista que apenas muito recentemente deixou o cinema português de assumir como seu desígnio a reflexão sobre a identidade cultural portuguesa, exercício esse que definiu o pensamento cinematográfico nacional até meados dos anos 90 (2010: 5). Desta forma, e generalizando, a paisagem no cinema português tende a (re)produzir um discurso de cariz sociológico e histórico, onde, em todo o caso, as categorias de apreciação estética da paisagem – isto é, o belo, o sublime e o pitoresco (Brooks, 2013: 110) – poderão estar implicados.

Ainda sobre o cinema português: este, para além de muito pessoal, poético e hermético, é tendencialmente metafórico, por motivos históricos concretos (Costa, 2011: 108). Estes traços distintivos da cinematografia portuguesa testam a arrumação teórica de Lefebvre, no sentido em que, tratando-se de um cinema narrativo, a mesma cinematografia tende a dilatar o tempo, integrar o silêncio, excluir a ação física. Ou seja, mecanismos que potenciam a alteração do olhar do espectador para o modo “espetacular”, estetizante.

Nesta comunicação, procurarei apresentar três hipóteses de relação entre personagem e paisagem/cenário no panorama do cinema português dos últimos 50 anos: (I) a personagem desconhece e descobre a paisagem, (II) a personagem habita a paisagem sem lhe pertencer, (III) a personagem pertence à paisagem, sem dela conseguir escapar. Serão referidos os seguintes filmes: Acto da Primavera (1963), Vale Abraão (1993), O Estranho Caso de Angélica (2010) de Manoel Oliveira; Verdes Anos (1963) e O Rio do Ouro (1998) de Paulo Rocha; Belarmino (1964) de Fernando Lopes; Veredas (1978) e À Flor do Mar (1986) de João César Monteiro; Trás-os-Montes (1976) de António Reis e Margarida Cordeiro; O Sangue (1989) e Juventude em Marcha (2006) de Pedro Costa; O Fantasma (2000) de João Pedro Rodrigues e Ruínas (2009) de Manuel Mozos. Deste modo, poder-se-á compreender o lugar simbólico da personagem face à paisagem no cinema português e, posteriormente, de que forma o social e o histórico são tornados estéticos por via da paisagem neste contexto fílmico específico.
Bibliografia

Baptista, T. (2010), ‘Nationally correct: the invention of Portuguese Cinema’, Portuguese Cultural Studies, 3, pp. 3-18.

Brook, I. (2013), ‘Aesthetic Appreciation of Landscape’, in Howard, P., Thompson, I. and Waterton, E. (eds) The Routledge Companion to Landscape Studies, Londres: Routledge, pp. 108-118.

Cauquelin, A. (2008), A Invenção da Paisagem, Lisboa: Edições 70.

Costa, J. M (2011), ‘documentário no pós-abril: os anos 70 na história do cinema português (e seus parêntesis)’, Panorama – 5ª Mostra do Documentário Português, 1 a 10 de Abril, Lisboa: CML/Direcção Municipal de Cultura/Videoteca, APORDOC, pp. 102-111.

Harper, G. e Rayner, J. (eds). 2010. Cinema and Landscape: Film, Nation and Cultural Geography. Chicago: Intellect, UCPress.

Lefebvre, M. (ed). (2006). Landscape and Film. Nova Iorque: Routledge.

Rosário, F. (2014) ‘O lugar da voz na construção do espaço documental português: Morais, Mozos e Tocha’. Cinema: Revista de Filosofia e da Imagem em Movimento – 5, pp 189-205.