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  Título
O olhar pictórico de Van Gogh pela lente poética de Resnais
Autor
Gilmara Martins Feliciano
Resumo Expandido
Van Gogh (1948), de Alain Resnais, transcende as fronteiras convencionais do gênero documental. Ao mesmo tempo que a voz over narra cronologicamente episódios da vida do pintor, as imagens descrevem seu fazer artístico de forma poética, unindo o ser e o estar no mundo do pintor. Essas peculiaridades aproximam o curta do conceito de filme-ensaio, de Arlindo Machado, (2003) autor que concebe esse tipo de produção cinematográfica como forma de constituir pensamento por meio da imagem e do som. Procurar-se-á discutir e aplicar esse conceito recorrendo também à Ismail Xavier, (2013) que afirma que essa forma, que seria a ensaística, configura-se como “uma experiência intelectual mais aberta em que o pensamento se arrisca em terrenos onde a exatidão é impossível”. (2013, p. 11) Vai-se tratar nessa comunicação do cinema meditado como veículo estético por meio do qual a realidade é filtrada e devolvida enquanto representação, ou seja, uma visão particular e pessoal do diretor. Nessa obra de Resnais, a imagem fonte não provém da realidade objetiva, ao contrário, seus planos e sequências são constituídos pela própria pintura de Van Gogh, por isso, representação da representação. Conforme dito por André Bazin, em seu ensaio ‘Cinema e Pintura’, (1991) quando o cineasta toma a pintura por meio da câmera e promove sobre ela uma reestruturação ‘desconstruindo’ seus limites físicos (moldura), sua unidade, sua sintaxe e sua semântica primeva, (ele) recria o espaço visual e a visão do pintor.

Ainda, ao converter a singularidade pictural em natureza sequencial, Resnais está a realizar o que Haroldo de Campos (2013, p. 5) chama de transcriação, na qual a tradução de um “texto criativo será sempre recriação, ou criação paralela, autônoma, porém recíproca”. (2013, p.5) Assim, os quadros permanecem enquanto essência, porém sua materialidade palpável (tinta) é traduzida ou transcriada na película em matéria incorpórea (luz).

Para discutir essas hipóteses, será apontada e analisada uma passagem do documentário em que Resnais narra o momento em que Van Gogh se vê imerso em ‘temporais’ mentais que convergiram na grande crise que o levou à primeira internação em Saint-Rémy, com base principalmente nos teóricos acima citados.
Bibliografia

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