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  Título
ESPAÇO-FORA-DA-TELA E O (DES)APARECER DO ROSTO EM LES YEUX SANS VISAGE
Autor
ISABEL PAZ SALES XIMENES CARMO
Resumo Expandido
O rosto proporciona uma dimensão de ligação e de comunicação com os outros que nos rodeiam; nele se revelam nossas emoções, sentimentos e ideias. Por esse motivo, nem sempre é lugar de clareza e entendimento. Pela boca, olhos, testa, fala-se; mas também se silencia. Diz-se, mas por meio de dobras, incoerências e entrelinhas. É um pouco desse ocultismo – algo de fantasmático, sobrenatural e aterrorizante – do rosto que discutiremos, a partir de sua ausência em “Os Olhos sem Rosto” (1960), de Georges Franju.

Christiane teve o rosto desfigurado após um acidente de carro provocado pelo pai, Dr. Génessier. Culpado, ele tenta restituir o rosto à filha por meio de transplantes de rosto de moças, sequestradas com a ajuda de sua assistente, Louise. Enquanto espera pelo sucesso dos transplantes, Christiane é aprisionada em casa e obrigada a usar uma máscara que esconde sua desfiguração.

Em “Os Olhos sem rosto” tudo gira em torno de rostos, num constante jogo dialético de mostra/esconde. Três sequências distintas são simbólicas desse jogo, construídas a partir de operações fílmicas que possibilitam essa (des)aparição: o posicionamento dos atores em relação à câmera, o uso de objetos que escondem a face, o jogo entre campo/fora de campo. Nelas são apresentadas as três personagens principais, Louise, Génessier e Christiane, e uma das vítimas, Simone. Louise se encontra atrás de um para-brisa (1ª sequência), Génessier está fora do campo (2ª) e Christiane, deitada em uma longue chaise, esconde o rosto em almofadas (3ª). Esses quatro rostos ocupam, a um primeiro momento, o espaço-fora-da-tela, de que fala Noel Burch (2008), sobre o qual o autor propõe duas formas de pensar e categorizar. Primeiro, em relação à orientação do espectador quanto ao espaço no filme (os quatro cantos da tela, atrás do cenário e atrás da câmera). A segunda é uma separação entre o espaço-fora-da-tela “concreto” – que é mostrado posteriormente, como no campo e contracampo, em que é possível reconhecer a continuidade daquele espaço – e imaginário. O espaço-fora-da-tela de Burch abrange não só um fora de campo que pode se tornar visível, mas também aquele espaço que em nenhum momento é mostrado, mas do qual conhecemos uma suposta existência que para nós passa a ser totalmente imaginária.

No início da sequência (1), em que surgem Louise e o cadáver de Simone, não vemos diretamente o corpo morto (está fora de campo), pois é reflexo de um espelho. Depois, o contracampo afinal nos é mostrado; aí, um chapéu obstrui nossa visão. O rosto está dentro do campo, mas fora do quadro: invisível. Na palestra de Génessier (2), o som de sua voz é indício de uma presença física ainda não revelada, anunciada no plano anterior. No quarto (3), estão presentes o corpo inteiro de Christiane, vivo, visível, e uma voz a ele associada (portanto pertencente ao campo), mas seu rosto é negado ao espectador (como foi o de Simone).

Estes quatro rostos são limitados a existir, por diferentes períodos, nesse espaço-fora-de-tela imaginário, que trabalha no preenchimento desse vazio de imagem. Descobrimos os rostos de Louise e de Génessier. Do cadáver, saberemos apenas o nome, Simone. Já o rosto de Christiane, a quem pertencem os “olhos sem rosto”, é um elemento de angústia, pois se trata de um rosto desfigurado. Essa ausência permanente se fortalece na montagem dos planos, como se a ausência se presentificasse, pois “como uma parte importante da personagem permanece em off, o espaço-fora-da-tela torna-se mais presente do que se a personagem entrasse em cena de corpo inteiro.” (BURCH, 2008, p. 41). Aqui falamos de uma ansiedade sentida pelo espectador, ansiedade por um rosto ao qual relacionar Christiane, mas que nunca será satisfeita: daí a inquietante sensação que a máscara nos provoca. Nosso intuito é discutir e problematizar o espaço-fora-de-tela em relação a esses rostos que não se deixam ver, pensando na dialética entre visível e invisível, presença e ausência.
Bibliografia

AGAMBEN, G. O rosto. In:______. Meios sem fim: notas sobre a política. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2015.

BURCH, N. Práxis do cinema. São Paulo: Perspectiva, 2008.

COURTINE, J. J; HAROCHE, C. História do rosto: Exprimir e calar as suas emoções. Lisboa: Editorial Teorema, 1995.

FREUD, S. O inquietante. In: ______. Sigmund Freud: obras completas, vol. 14. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

LE BRETON, D. Les passions ordinaires: Anthropologie des émotions. Paris: Armand Colin/Masson, 1998.

OS OLHOS sem rosto. Direção: Georges Franju. Produção: Jules Borkon. Paris /Roma: Champs-Elysées Productions, Lux Film. 1960. 1 filme (88 min), 35 mm, p&b.

REINALDO, Gabriela. Caras em profusão – o que nos dizem as imagens do rosto? In Carlos Gerbase, Eduardo Campos Pellanda, Juliana Tonin (orgs.). Meios e mensagens na aldeia virtual. 1ª ed. Porto Alegre: Sulina, 2012, v. 1, p. 89-108.

RISTERUCCI, P. Les Yeux sans visage de Georges Franju. Liège: Éditions Yellow Now, 2011.