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  Título
Relação entre diferentes formatos de produção no mercado exibidor
Autor
Cristiane Scheffer Reque
Resumo Expandido
A proposta é realizar uma análise sobre fenômenos ligados ao lançamento de obras cinematográficas brasileiras recentes, considerando conceitos que Christian Metz traz em Linguagem e Cinema (1980), que diferencia o fato fílmico do fato cinematográfico. Nesse estudo interessa um olhar a partir do fato cinematográfico, englobando fatores adjacentes à obra, considerando o que vem antes, durante – mas fora – e depois do filme.

Foi proposital a escolha por duas obras totalmente distintas sob o ponto de vista da produção. Flores Raras (2013) foi dirigido pelo cineasta Bruno Barreto, da LC Barreto - Filmes do Equador, produtora carioca na ativa há 55 anos, que realizou o filme com um dos mais altos orçamentos do mercado brasileiro atual. Foram R$ 13 milhões, a maior parte captada via Lei do Audiovisual e Lei Rouanet, e nem a presença do elenco famoso tornou fácil esta obtenção de recursos, segundo o próprio diretor.

Na outra ponta temos o filme Castanha (2014), primeiro longa metragem de Davi Pretto e da produtora Tokyo filmes, fundada em 2009 por ele e mais três colegas, todos formados no Curso de Produção Audiovisual da PUCRS. Neste caso, o longa obteve R$ 60 mil do Fumproarte, Fundo de apoio da Secretaria de Cultura de Porto Alegre, e conseguiu ser realizado graças a apoios e parcerias, com equipe mínima em esquema de produção documental – apesar da obra fazer o hibridismo com o gênero ficção. Fato comum é a estreia mundial de ambos no Festival Internacional de Cinema de Berlim. Flores Raras foi mostrado em 2013 na mostra Panorama da 63a. Berlinale, enquanto Castanha estreou na seção Forum, da 64a. edição do evento.

Como referência são utilizados os estudos de João Guilherme Barone, especialmente as ferramentas do método desenvolvido para observar as relações entre os agentes e as estruturas da indústria audiovisual, partindo da tríade de atividades do núcleo central: produção, distribuição e exibição. Da mesma forma, é estabelecido um diálogo com as análises do pesquisador Pedro Butcher, e ainda as bases de dados sobre bilheteria e comercialização nos cinemas brasileiros como o site Filme B, informações da ANCINE através do OCA, Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual, e dados do Instituto de Pesquisas Datafolha de 2012 sobre consumo de entretenimento no Brasil.

A partir destas bases, proponho refletir sobre o contexto do lançamento de um longa metragem atualmente em cinemas do Brasil, comparando modos radicalmente diferentes de produção e seus resultados de bilheteria. A ideia não é fixar-se somente nos números de ingressos vendidos, mas indagar sobre o que podem nos revelar esses dados. O objetivo é relacionar as estratégias de promoção e comercialização das duas obras, as oportunidades de potencializar a divulgação através da estreia mundial na Berlinale, o contexto do mercado exibidor brasileiro no momento de cada lançamento e, por fim, contrapor estas informações com as possíveis preferências do público consumidor de entretenimento atualmente no Brasil.

As radicais assimetrias de desempenho dos filmes brasileiros no mercado exibidor, onde a questão mais complexa refere-se à restrição de espaço e tempo das obras nacionais em cartaz, permitem projetar uma expectativa de ampliação do circuito exibidor alternativo, que contemple outro público além daquele que frequenta os multiplexes dos shopping centers, e que dê vazão aos 128 longas produzidos no Brasil em 2015, por exemplo.

Acrescenta-se uma reflexão final sobre a questão tecnológica, com surgimento dos meios digitais para a veiculação de conteúdos e novos agentes de exibição pela internet e provedores de acesso condicionado, afetando de forma determinante o mercado exibidor tradicional. Além da transformação na produção, com maior diversidade nas maneiras de realizar filmes no formato digital, as formas de consumo do audiovisual também sofrem mudanças radicais, condicionando todo o mercado a repensar sua permanência e quais as estratégias para sobrevivência.
Bibliografia

BARONE, João Guilherme. Comunicação e Indústria Audiovisual: Cenários Tecnológicos e institucionais do cinema brasileiro na década de 90. Porto Alegre: Editora Sulina, 2009.



BRITZ, Iafa; BRAGA, Rodrigo Saturnino; DE LUCA, Luiz Gonzaga. Film Business – O Negócio do Cinema. In: DIAS, Adriana; SOUZA, Letícia (org.) Rio de Janeiro: Elsevier, 2010.



BUTCHER, Pedro. Cinema brasileiro hoje. São Paulo: Publifolha, 2005.



Filme B. Database mundo. Disponível em: .



Hábitos de consumo no mercado de entretenimento. Instituto de pesquisas Datafolha. Realizada entre 12 e 19 de maio de 2012. Disponível em: Acesso em: 18 de outubro de 2015.



Internet movie database. Disponível em:



METZ, Christian. Linguagem e Cinema. São Paulo: Editora Perspectiva, 1980.



Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual – OCA. Disponível em: .