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  Título
Afeto, comunico: experimentando Emile Reynaud
Autor
Gilberto Caserta
Resumo Expandido
A apresentação do Prof. Dr. Norval Baitello Jr. na abertura do IX Encontro de Pesquisadores da Universidade de Sorocaba, em outubro de 2015, trouxe, entre outros conceitos, o questionamento se a comunicação seria apenas troca de informação. Seu trabalho acadêmico, nos últimos vinte anos, reafirma que a informação apenas gera conectividade, apenas a possibilidade de uma comunicação, que efetivamente apenas ocorreria havendo a construção de vínculos, de afeto. Não o afeto do sentido romântico, mas aquele do afetar, atingir, tocar, repercutir no outro. Uma comunicação que começa e termina no corpo (BAITELLO, 2012, p.61).

Nesse sentido, percebo ter sido afetado pelo trabalho desenvolvido por Emile Reynaud, através do contato com os registros fotográficos de alguns aparelhos criados por ele, como o praxinoscópio e o Teatro Ótico, e com dois de seus filmes animados recuperados, Pauvre Pierrot e Autour d'une cabine.

Durante alguns anos, reconto sua história e exibo suas imagens em oficinas sobre animação, me sentindo mais próximo de sua trajetória a cada reapresentação. Desperta em mim a necessidade de levar essa comunicação adiante, testar afetar a outros de maneira similar. Procurar atingir não apenas através da presença das imagens, mas também fazer uso do objeto para gerar o sentido da experiência, sem recorrer à semântica (GUMBRECHT, 1998).

Criar vivências que promovessem outro ritmo na relação com a produção e fruição das imagens, arranhar a superfície indistinta dos meios eletrônicos e deixar remanescentes de algum tipo de memória sensorial.

Levando em conta as dificuldades de produção, o caminho escolhido foi ensaiar com algum dos brinquedos óticos do período do final do século XIX, especificamente o aparelho que possivelmente motivou parte do percurso de Reynaud, o zootrópio. Ele havia prometido construir um para seu jovem assistente Pierre Tixier, quando, em 1876, a revista La Nature publicou uma série de artigos sobre dispositivos de ilusão ótica (MYRENT, 1989).

Pelas pontes sustentadas em interesses diversos como design e animação, transitaram seus dispositivos e histórias animadas até mim.

Ao produzir essa versão contemporânea do zootrópio, revista por métodos de projeto auxiliado por computador, planejo maximizar o contato do futuro usuário com a sensorialidade proporcionada pelo uso de diferentes materiais, como madeira, papel, metal e adesivo plástico, seus odores e texturas. A constituição de sentidos começa por eles e, da mesma maneira, seus processos de criação e montagem também devem reproduzir o confronto entre as tecnologias digital e artesanal, entre a simulação tridimensional virtual e os testes empíricos. O ruído, o contraste, o estranhamento devem ser notados na relação com o objeto para que ele se distingua e deixe rastros na percepção dos sujeitos.
Bibliografia

BAITELLO JR, Norval. O Pensamento Sentado. Porto Alegre: Editora Unisinos, 2012.

CALVINO, Italo. Seis propostas para o próximo milênio. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

CARLSON, Marvin. Performance: uma introdução crítica. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2009.

CRARY, Jonathan. Techniques of the observer on vision and modernity in the nineteenth century. Cambridge: MIT Press, 1992.

GUMBRECHT, Hans Ulrich. Corpo e forma. João Cezar de C. Rocha (Org.). Rio de Janeiro: EdUERJ, 1998.

GUMBRECHT, Hans Urich. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto PUC-Rio, 2010.

MANNONI, Laurent. A grande arte da luz e da sombra. São Paulo: Editora Senac, Editora UNESP, 2003.

MIRANDA, Luciana Lobo. A cultura da imagem e uma nova produção subjetiva. Revista Psicologia Clinica, Rio de Janeiro, vol.19, n.1, p. 25-39, 2007.

MYRENT, Glenn. Emile Reynaud: first motion picture cartoonist. Film History, v3, pp 191-202. Taylor & Francis, 1989.