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  Título
Doug Aitken, narrativas multiplataformas, performance e audiovisual
Autor
Christine Pires Nelson de Mello
Resumo Expandido
Numa revisão crítica empreendida às práticas artísticas em 1999, Rosalind Krauss chama a atenção sobre o quanto as mídias se encontram profundamente contaminadas e ideologizadas na nossa cultura, a ponto de necessitarem de uma redefinição e expansão em seus conceitos, na medida em que não há mais condição de observá-las em seus segmentos ou em suas especificidades. Para ela, só é possível pensar a estética contemporânea considerando a mídia como fator agregador, tanto na sociedade quanto no campo geral da criação artística. Para tanto, afirma ser necessário expandir o espaço das produções significantes e abandonar a análise de cada uma das obras em separado ou a análise de cada uma das mídias em seus contextos específicos de linguagem.

À ampla profusão, disseminação e contaminação das mídias nas práticas sociais, culturais e artísticas, Krauss denomina condição pós-mídia. Para ela, a crítica às práticas artísticas só fará sentido tomando-se em conta a noção de mídia para além das convenções de seus códigos e de suas propriedades particulares.

A presente comunicação pretende refletir sobre práticas pós-midiáticas por meio dos deslocamentos, passagens e contaminações entre as multiplicidades do cinema e das artes em um panorama de agenciamentos estéticos e tecnológicos. Nesse contexto, nas últimas décadas, é possível observar a multiplicidade das intersecções entre cinema e arte a partir de experiências promovidas pelas narrativas multiplataformas, que interconectam múltiplas plataformas comunicacionais às instalações audiovisuais, à performance e à mobilidade. Estas novas estruturas narrativas organizam-se a partir de processos coletivos, permitindo a ativação de comunidades ligadas em rede.

Com o objetivo de promover aproximações críticas com as práticas pós-mídia que relacionam narrativas multiplataformas, performance e audiovisual, a presente comunicação busca refletir o trabalho Black Mirror (2010) de Doug Aitken. Com ele, observamos tensões e experiências constituídas nas dobras entre ficção e realidade, entre global e local, entre arquivo e memória, entre espaços físicos e virtuais - os chamados espaços intersticiais – nos trânsitos entre o cinema contemporâneo, a instalação audiovisual, o live cinema, as plataformas digitais em rede, internet, blog, mobilidade, arquivos, bancos de dados, livro de artista, dança, música e ações performáticas na esfera pública.

O trabalho aborda problemas de ordem narrativa, relacionados a redes sociais, ações performáticas e arquivos audiovisuais, organizados por meio de situações nômades e dispersas, em incessantes processos de desconstrução, contaminação e compartilhamento.

Esses agenciamentos entre plataformas entrecruzadas de comunicação instigam não apenas um debate sobre novos modos de pensar e constituir narrativas, mas também instrumentais próprios de leitura para a abordagem de poéticas emergentes. Trata-se de observar narrativas que se constroem nas extremidades, nas linhas fronteiriças entre organização vital e múltiplas linguagens, entre condições de vida, forma estética e experiência social.

Abordada como arte, as narrativas multiplataformas em suas relações com a performance e o audiovisual são aqui compreendidas não apenas em seus aspectos não-lineares e colaborativos mas também como uma forma de ficcionalização do real. Tais problemas são enfatizados em torno da experiência cotidiana, trazendo, com isso, dimensões de sociabilidade, indeterminação e incerteza.

Black Mirror de Doug Aitken incita, portanto, ao modo de Rosalind Krauss, a análise de trabalhos sob a forma de uma especificidade diferenciada, como um modo de reinventar e rearticular as intersecções entre arte e cinema já em um novo ciclo cultural.

Como força que atravessa, o presente estudo tem como interesse tirar o foco do “específico” de cada uma das ações e linguagens envolvidas em torno da construção narrativa, problematizando na ativação de comunidades os seus principais aspectos poéticos.
Bibliografia

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